APESAR DE VCs

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Retomaremos este Blog para postar as Histórias da Ditadura, como um BLOG janela ligado ao Blog JUNTOS SOMOS FORTES

NOSSOS HEROIS -

NOSSOS HEROIS -
Amigos(as) Criei uma pagina no FACEBOOK intitulada : NOSSOS HERÓIS. Meu objetivo é resgatar a história dos mineiros (as) que lutaram contra a ditadura militar. Fui Presidente do Comitê Brasileiro Pela Anistia/MG e estou postando todas anotações que fiz durante esse periodo. São documentos históricos e inéditos. Caso tenha interesse dê uma olhadinha Abraços BETINHO DUARTE

Friday, March 11, 2011

Apesar Delles- Paulo Stuart Wrigth


PAULO STUART WRIGTH (1933-1973)
Filiação: Maggie Belle Wright e Lothan Ephrain Wright
Data e local de nascimento: 02/07/1933, Joaçaba (SC)
Organização política ou atividade: APML
Data e local do desaparecimento: setembro de 1973, no estado de São Paulo
Seu nome consta na lista de desaparecidos políticos anexa à Lei nº 9.140/95. Filho de missionários presbiterianos norte-americanos, nascido em Joaçaba (SC), Paulo Stuart Wrigth
sempre se preocupou com as condições de trabalho dos operários. Essa preocupação o levou a trabalhar na construção civil em Los Angeles (EUA), nas férias dos seus estudos de
pós-graduação em sociologia. Nos Estados Unidos também fundou um grupo contrário à discriminação racial. Estava fazendo o doutorado em sociologia quando – filho de americanos
que era - foi convocado para a guerra da Coréia. Teve de deixar os Estados Unidos e passou a ser procurado pelo FBI.
De volta ao Brasil e casado com Edimar Rickli, o casal se engajou num projeto da Igreja Presbiteriana nas fábricas paulistas. Ele aprendeu o ofício de torneiro-mecânico e atuou no
bairro operário de Vila Anastácio. Foi golpeado pela morte do seu primeiro filho num hospital do antigo IAPC, quando a criança faleceu por falta de assistência adequada. Jurou que
lutaria para que isso não se repetisse na vida de outros operários. De volta ao seu estado natal, Santa Catarina, ajudou a criar os primeiros sindicatos de Joaçaba, inclusive o dos
metalúrgicos. Assumiu uma Secretaria municipal e foi o primeiro candidato protestante à Prefeitura da cidade, em 1960. Concorreu pelo PTB e perdeu por 11 votos. Ainda nesse mesmo
ano, tornou-se secretário regional da União Cristã dos Estudantes do Brasil e dirigiu a Imprensa Oficial de Santa Catarina. Em 1962, foi eleito deputado estadual pelo PSP.
Denunciou o controle de grupos oligárquicos de Santa Catarina sobre a pesca e organizou 27 cooperativas de pescadores em todo o litoral daquele estado, reunindo-as, em seguida,
numa Federação – a Fecopesca – para colocar o controle da pesca nas mãos dos pescadores (o que inspirou Dias Gomes, na novela O Bem Amado).
Na véspera do Natal de 1963, sofreu um atentado, mas conseguiu convencer o ex-sargento contratado para matá-lo de que tal crime seria contrário aos interesses da sua própria classe.
Esse sargento teria sido contratado pelo suplente de Paulo Wright, um bicheiro ligado a Adhemar de Barros, o corrupto governador paulista que já atuava abertamente em favor de um
golpe militar para depor João Goulart. Depois de abril de 1964,a Assembléia Legislativa catarinense, para demonstrar sua adesão ao novo regime e sob pressão da Marinha e da
Secretaria de Segurança Pública, sentiu-se na obrigação de cassar o mandato político de algum deputado considerado subversivo. Como Paulo Wright não usava gravata e paletó
quando subia à tribuna, acabou sendo cassado por “falta de decoro parlamentar”. Registre-se que o próprio PTB, partido do presidente da República deposto, votou a favor da
cassação.
Asilou-se no México, de onde voltou, clandestinamente, um ano depois. Começou então a sua militância clandestina como dirigente da AP. De acordo com documentos dos órgãos de
segurança, foi o representante oficial dessa organização na reunião da OLAS – Organização Latino-Americana de Solidariedade, realizada em Havana em agosto de 1967. Teria
recebido treinamento militar tanto naquele país quanto em Pequim. Foi submetido a vários processos na Justiça Militar, recebendo algumas condenações.
Entre 1971 e 1972, ao lado do principal dirigente da AP, Jair Ferreira de Sá, alinhou-se com a ala dessa organização que se opôs à incorporação de seus militantes ao PCdoB, após uma
longa disputa interna que culminou, em setembro de 1972, com a separação definitiva dos dois grupos. A chamada maioria foi incorporada ao PCdoB, entre eles o atual presidente do
partido, Renato Rabelo ao passo que Paulo Wright, Jair, Honestino Guimarães e outros militantes mantiveram-se na AP, já rebatizada como Ação Popular Marxista Leninista.
Nos primeiros dias de setembro de 1973, foi seqüestrado e levado ao DOI-CODI/SP, onde foi morto sob torturas em 48 horas. Segundo informações de Osvaldo Rocha, dentista,
militante da APML na ocasião do desaparecimento de Paulo, ambos estavam juntos num trem que ia de São Paulo a Mauá, na Grande São Paulo. Nessa ocasião, ao terem percebido
que eram seguidos por agentes da repressão política, Osvaldo desceu do trem em primeiro lugar e Paulo combinou que desceria em outro ponto.
Ao chegar em sua residência, localizada em São Paulo, Osvaldo foi preso por policiais, sendo, em seguida, conduzido às dependências do DOI-CODI, onde foi despido e passou a ser
torturado violentamente. Nessa oportunidade, viu no chão a mesma blusa que Paulo usava há pouco, quando estavam no trem. Foram impetrados habeas-corpus pelo advogado José
Carlos Dias em favor de Paulo Stuart Wright e de Pedro João Tinn, nome falso usado por ele nos documentos pessoais. Inúmeras iniciativas foram tomadas visando à sua localização.
A primeira providência foi a ida do seu irmão, Jaime Wright, acompanhado do coronel Teodoro Pupo, ao DOI-CODI, onde falaram com um sargento que demonstrava muito
nervosismo. Após essa conversa, o sargento foi ver alguma coisa lá dentro, voltando meia hora depois e informando que não havia ninguém com o nome de Paulo Stuart Wright. O
advogado José Carlos Dias, que pertenceu à Comissão Justiça e Paz da Arquidiocese de São Paulo e, posteriormente, seria ministro da Justiça, também apresentou declarações de uma
testemunha que esteve com Paulo Wright na sala de identificação do DOI-CODI/SP, Maria Diva de Farias.
Além das iniciativas tomadas pelos familiares no âmbito nacional, em virtude da sua dupla cidadania foram realizadas iniciativas também junto ao Departamento de Estado e ao Senado
dos Estados Unidos. As autoridades brasileiras, na época, continuaram negando a prisão de Paulo, entendendo que se tratava de uma ingerência do governo norte-americano, porque
ele havia sido deputado da Assembléia Legislativa de Santa Catarina.
Apesar de todos os esforços empreendidos pelos familiares, sua prisão nunca foi confirmada e seu corpo até hoje não foi encontrado. Sua ficha foi encontrada na gaveta dos arquivos
secretos do DOPS/PR que continha 17 militantes de oposição ao regime militar com a anotação “falecidos”.
Esse seu irmão, Jaime Wright, pastor presbiteriano, tornou-se um grande símbolo da luta pelos Direitos Humanos no Brasil, sendo em outubro de 1975 um dos co-celebrantes do culto
ecumênico realizado na Catedral da Sé em protesto contra a morte sob torturas de Vladimir Herzog, e também um dos responsáveis pelo projeto Brasil: Nunca Mais, que propiciou
profundo inventário das torturas e dos assassinatos perpetrados pelos porões do regime militar.
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+ Informações.
PAULO STUART WRIGHT
Dirigente da AÇÃO POPULAR MARXISTA-LENlNlSTA (APML).
Nasceu a 2 de junho de 1933 em Joaçaba, Estado de Santa Catarina, filho de Lathan Ephair Wright e Maggir Belle.
Desaparecido desde 1973.
No DOPS/PR, o nome de Paulo foi encontrado numa gaveta com a indicação “falecido”.
Do reverendo Jaime Wright, irmão de Paulo:
“O telefone tocou. ‘Alô?!’ Era a voz mansa e inconfundível de Paulo.
‘Podemos nos encontrar hoje às 14:00 horas na Praça da Sé?’ ‘Sim.’ No esquema combinado, nos encontramos às 15:00 horas na Praça da
República. Eram tempos de ditadura. Clandestinidade. Conversávamos sobre família e, principalmente, teologia. Lembrei-lhe que João Calvino
também viveu na clandestinidade, adotando nove codinomes diferentes.
Nas lembranças da nossa infância, em Santa Catarina, destacamos a ousadia dos nossos pais, ambos missionários norte-americanos. Tiveram a rara
intuição de que seus filhos precisavam estudar na convivência diária com outros brasileiros e não numa escola segregada para americanos em São
Paulo. Fundaram uma escola nos salões de madeira da Igreja Presbiteriana de Herval, na margem esquerda do Rio do Peixe. (Joaçaba está no outro
lado do rio.) Sabiam eles os riscos que corríamos, estudando e convivendo com os amigos do dia-a-dia. Com descendentes de italianos, alemães e
poloneses - além da gente cabocIa - aprenderíamos cada palavrão...
Lembrávamos também a coragem de ‘Dona Bela’, nossa mãe, que, contrariando a vontade de papai, pegou um trem e viajou até o Rio de Janeiro para
buscar recursos para a instalação do primeiro posto de puericultura na região.
Sentou-se na sala de espera de Dona Darcy Vargas, presidente da LBA, informando que dali não sairia até ser atendida. Voltou triunfante para casa.
(O posto funciona até hoje.)
Exemplos missiológicos assim, fora do seu tempo, contribuíram para torná-lo um leigo cristão irrequieto e inconformado e, sobretudo, corajoso.
Estava identificado com os sofrimentos e necessidades do seu povo.
Sua preocupação com a condição dos operários levou-o a trabalhar na construção civil em Los Angeles, nas férias dos seus estudos de pós-graduação.
Fundou, nos Estados Unidos, um grupo contrário à discriminação racial. Estava fazendo doutorado em sociologia quando foi convocado para a
guerra da Coréia.
Fugiu dos Estados Unidos para não perder sua cidadania brasileira. Foi procurado pelo FBI.
De volta ao Brasil e casado com Edimar Rickli, engajaram-se num projeto da Igreja Presbiteriana do Brasil nas fábricas paulistas. Fez-se torneiro
mecânico e atuou no bairro operário de Vila Anastácio. Foi golpeado pela morte do seu primeiro filho num hospital do antigo IAPC, quando a criança
nasceu desassistida por médicos e enfermeiras. Jurou que iria lutar para que isso não se repetisse na vida de outros operários.
Paulo sempre fez dos seus dias a matéria prima de suas ações. Voltando a Santa Catarina, ajudou a criar os primeiros sindicatos de Joaçaba, inclusive
o dos metalúrgicos. Foi o primeiro candidato protestante à prefeitura. Perdeu por 11 votos. Foi eleito para a Assembléia Legislativa. Denunciou o
controle de grupos oligárquicos do Estado sobre a pesca. Organizou 27 cooperativas de pescadores em todo o litoral catarinense, reunindo-as, em
seguida, numa Federação (FECOPESCA) para colocar o controle da pesca nas mãos dos pescadores (o que inspirou Dias Gomes, na primeira novela
em cores da Globo: O Bem Amado).
Na véspera do Natal de 1963, sofreu atentado a mando do partido de Adhemar de Barros, mas convenceu o ex-sargento contratado para matá-lo de
que tal crime seria contrário aos interesses da sua classe. Tornou-se ‘bode expiatório’ quando, em 1964, a Assembléia Legislativa foi pressionada pelo
Regime Militar a cassar alguém ‘corrupto’ e/ou ‘subversivo’. Acabou sendo cassado por ‘falta de decoro parlamentar’ (não usava gravata e paletó
quando subia à tribuna...).
Asilou-se no México e voltou um ano depois. Começavam seus dias de atividade subterrânea como líder do movimento Ação Popular, originário dos
egressos dos movimentos estudantis cristãos banidos: Juventude Universitária Católica (JUC) e Associação Cristã de Acadêmicos (ACA). Viveu oito
anos na clandestinidade. Nos primeiros dias de setembro de 1973, foi seqüestrado pelo II Exército e levado ao DOI-CODI de São Paulo, onde foi
morto por torturas nas primeiras 48 horas do seu cativeiro. Até hoje não se sabe o que fizeram com seus restos mortais.
Ruas em quatro capitais ostentam o nome de Paulo Stuart Wright. Na capital do seu Estado, todas as Igrejas se fizeram representar na cerimônia de
inauguração da rua que passa ao lado da Igreja Metodista, menos a Presbiteriana. Lá, ele tinha sido eleito presbítero. Com o seu ingresso na
‘política’, a igreja de Florianópolis lhe proibiu de fazer oração e dirigir classe de Escola Dominical. Pelo visto, a anistia ainda não chegou ao
presbítero (leigo) que teve a coragem de levar suas convicções cristãs às últimas conseqüências.”
De Delora Jan Wright, sobrinha de Paulo:
“Isso aconteceu em São Paulo, Capital, possivelmente nos dias 2, 3 ou 4 de setembro de 1973. Segundo informações de Osvaldo Rocha, dentista,
militante político da APML, na ocasião do desaparecimento de Paulo, ambos estavam juntos num trem que ia de São Paulo a Mauá, na grande São
Paulo; nessa ocasião, ao terem percebido pessoas ligadas à repressão política, Osvaldo desceu do trem em primeiro lugar e Paulo teria descido em
outro ponto.
Ao chegar em sua residência, localizada em São Paulo, Osvaldo veio a ser preso por policiais, sendo, em seguida, conduzido às dependências do
DOICODI(OBAN), onde foi despido e agredido violentamente e, nessa oportunidade, viu no chão a mesma blusa que Paulo usava no trem que o
conduzia a Mauá. Foram impetrados Habeas-Corpus pelo advogado José Carlos Dias em favor de Paulo Stuart Wright e Pedro João Tinn, nome falso
usado por ele inclusive nos documentos pessoais.
Uma série de iniciativas foram tomadas visando a sua localização. A primeira providência no sentido dessa localização foi a ida do irmão, Jaime
Nelson Wright, acompanhado de um Coronel, cujo nome é Teodoro Pupo, ao DOI-CODI, onde falaram com um Sargento, que demonstrava muito
nervosismo. Após essa conversa com o sargento, este foi ver alguma coisa lá dentro, voltando meia hora depois, quando, então, informou que não
havia ninguém com o nome de Paulo Stuart Wright.
Dias depois, houve uma outra iniciativa, no sentido da localização de Paulo, quando um Pastor Metodista que tinha relações de parentesco com o
Major Ustra e se dispôs a ajudar a família. O Pastor informou os familiares de Paulo que o Major Ustra mostrou a ele, nas dependências do DOI-
CODI, uma pasta onde constava apenas o título de eleitor de Paulo Stuart Wright e que não tinha nenhuma notícia do
paradeiro do mesmo. O Major Ustra não soube justificar os motivos pelos quais não tinha notícia do paradeiro de Paulo.
Uma dentista, cujo nome é Marlene de Souza Soccas, contou ter sido presa em 1970, ficando detida nas dependências do CENIMAR (Centro de
Informações da Marinha), onde pôde ver um painel com várias fotografias de Paulo, o que, desde então, indicava que o mesmo já era procurado pelos
órgãos de repressão.
Além das iniciativas tomadas pelos familiares de Paulo, no âmbito nacional, outras tiveram ensejo no Forum Internacional, em virtude da sua dupla
cidadania.
Foram feitas junto ao Departamento de Estado e ao Senado, nos Estados Unidos, sendo certo que as autoridades brasileiras continuaram negando a
prisão de Paulo Stuart Wright, entendendo que se tratava de uma ingerência do governo norteamericano, até porque Paulo havia sido Deputado do
Parlamento Brasileiro, mais precisamente na Assembléia Legislativa de Santa Catarina. Apesar de todos os esforços empreendidos pelos familiares,
Paulo até hoje não foi encontrado e a convicção de que foi assassinado, está baseada em declarações prestadas por
terceiros que constam entre os documentos do Projeto ‘Brasil Nunca Mais’.”
A respeito de sua militância e desaparecimento, ver o livro “O Coronel Tem Um Segredo:
Paulo Wright Não Está em Cuba”, de Delora Jan Wright, Editora Vozes, São Paulo.
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+ Informações.

Edição n.º 811 de 07/07/2005
 
Tribuna Catarinense


Olhar o passado, entender o futuro
Em tempos de turbulência a maioria das pessoas fica atônita, descrente, sem esperança, apreensiva, tentando imaginar “onde isso tudo vai parar”? Esse bombardeio de informações e contra-informações produz um clima de terrorismo, joga tudo na vala comum e tem a intenção de desmoralizar por completo a institucionalidade política, historicamente atacada. Outra questão que se coloca é qual o objetivo final de quem está patrocinando esse bombardeio, o que eles querem com isso?
Nada melhor do que buscar alguma boa referência que extrapole essa conjuntura. Com certeza teríamos várias, mas quero resgatar uma, importante, mas infelizmente pouco lembrada e pouco valorizada no seu sentido político.
Lembro do catari-nense Paulo Stuart Wright, descendente de missionário americanos, de vocação presbite-riana, nascido em Joaçaba, no dia 02 de julho de 1933. Sim, Paulo Stuart Wright completaria, apenas 72 anos. Este cidadão teve uma formação religiosa muito forte, envolveu-se na luta dos trabalhadores, inicialmente no movimento sindical, disputou uma eleição para prefeito de Joaçaba em 1960, com apenas 27 anos de idade, perdendo a disputa por 11 votos; elegeu-se deputado estadual dois anos depois e começou um mandato voltado a organização dos trabalhadores. Um dos resultados foi a formação da Fecopesca (Federação Catarinense das Cooperativas de Pescadores), formada por 27 cooperativas de pescadores que ajudou a criar.
Em abril de 1964, no entanto, teve o mandato cassado. Acusação: quebra de decoro parlamentar. Motivo: não usar terno e gravata nas seções da Assembléia Legislativa de Santa Catarina. Na verdade, sua cassação foi encomendada pelo Cenimar (Centro de Informações da Marinha) e Paulo Wright era sabedor do risco de vida que estava correndo. Exilou-se por um tempo e voltou para o Brasil na clandestinidade. Não abandonou sua missão, prosseguindo na atuação como dirigente da AP (Ação Popular). No dia 3 setembro de 1973, quando foi visto pela última vez, num trem em São Paulo. O que ocorreu deste dia em diante, ninguém explicou até hoje. Além desse breve relato, sua história é tema de vários livros, um filme e um documentário, que será lançado nos próximos meses em Florianópolis. Porém, lamentavelmente, ele é ainda pouco lembrado nos capítulos da história de Santa Catarina.
Algumas pessoas que conviveram com Paulo Stuart Wright também fazem relatos muito interessantes da época, como dona Eliane Marinho, que foi sua secretária, ou o advogado Murilo Krüger, colega de militância pastoral. Essas pessoas relatam principalmente o lado humano de Paulo Stuart Wright e, junto com o lado humano, a personalidade, o zelo pela ética e a moralidade pública, maior patrimônio de um cidadão, de uma cidadã.
Diante desse exemplo posso fazer reflexões ligadas ao momento que vivemos: -a história política brasileira é marcada por injustiças, nesse caso ser justo era considerado crime; -as verdades geralmente só aparecem muito tempo depois que as pessoas se vão. Como acreditar nas instituições sem acreditar nas pessoas? E como acreditar nas pessoas quando estamos diante de versões completamente antagônicas?
Frente ao quadro de insegurança e à dúvida, olhar para trás, buscar bons exemplos, pode fazer a diferença. Pode nos fazer acreditar que nem tudo está perdido e que um dia haveremos de entender qual dos lados estava com a razão.
* José Roberto Paludo,
historiador, Florianópolis.
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+ Informações.

A vida de Paulo Wright retratando uma época

Artigo de Aramis Millarch originalmente publicado em 06 de abril de 1989
Contar as controvérsias do regime militar e as ações de resistência à disputa brasileira é a proposta do filme que o Cine Groff começa a exibir hoje, com sessões às 14, 16, 18, 20 e 22h. "PSW - Uma crônica subversiva" conta a história de Paulo Stuart Wright, ex-deputado e desaparecido nos porões da repressão. O filme começa mostrando o encontro clandestino de Paulo com mais dois combatentes, na Semana da Pátria de 1973, quando teria sido preso e supostamente morto, e segue numa retrospectiva onde conta a sua trajetória pessoal e política. Paulo Stuart Wright nasceu em Joaçaba, Santa Catarina, filho de pais americanos e protestantes, fato que o levou a estudar nos Estados Unidos. Também graças a essa influência é que Paulo, já de volta ao Brasil, engajou-se ao movimento de trabalho social que os protestantes progressistas desenvolveram na época. Em 1963 foi eleito deputado estadual, baseando seu mandato em atos e defesa das reivindicações dos trabalhadores. Em 1964 foi cassado, sendo obrigado a deixar o país, só retornando em 1967, quando passou a lutar clandestinamente contra a ditadura. Desapareceu em 1973, e seu irmão, o pastor protestante Jaime Wright, coordenador do livro "Brasil Nunca Mais", ainda continua investigando o fato. Antônio Fagundes vive o papel de Paulo, e no elenco estão ainda Paulo Mosca, Renato Borghi, Maria Padilha e Antônio Abujamra. A produção é assinada por José Jofilly e a direção é de Paulo Halm e Luís Arnaldo Dias Campos. O primeiro já é conhecido pelos trabalhos realizados nos filmes "Pedro Mico", de Ipojuca Pontes, e "A cor do seu destino", de Jorge Duran, quando foi assistente de direção. Já Luiz Arnaldo consagrou-se com o curta "Na calada da noite", vencedor do Sol de Ouro no Rio Cine Festival de 1986, e também com o curta ABC Brasil, que ganhou o prêmio de melhor filme no festival de curtas de Niterói. "PSW - Uma crônica subversiva" é portanto, a soma de vários talentos num esforço de mostrar a público um retrato de uma época importante da história nacional, aproximando-se totalmente do ponto de vista daqueles que foram silenciados pela história oficial. LEGENDA FOTO - Renato Borghi, no filme "PSW - Uma Crônica Subversiva"
Texto de Aramis Millarch, publicado originalmente em:
Estado do Paraná
Almanaque
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+ Informações.

Paulo Wright, cristão e revolucionário


  

por André Tadeu de Oliveira * – A história do cristianismo ilustra o caminho de muitos homens e mulheres que vivenciaram o martírio por causa da justiça. É o caso de Paulo Wright (1933-?), ilustre cristão e cidadão brasileiro esquecido pela historiografia de nosso país e pela Igreja Evangélica, instituição a qual dedicou parcela significativa de sua vida.
Paulo Stuart Wright nasceu em julho de 1933 na pequena cidade de Herval, Santa Catarina. Seus pais, Lathan e Bella Wright, missionários presbiterianos estadunidenses, foram responsáveis pela implantação do trabalho reformado nesta região de Santa Catarina . Apesar da forte perseguição, organizaram uma pujante igreja presbiteriana e uma escola paroquial.
A infância de Paulo foi marcada por um ambiente harmonioso, porém, ao mesmo tempo, bastante rígido. O contato com a natureza e com os animais, assim como a preocupação para com o sofrimento do próximo, ajudaram a formar seu caráter. Acompanhava com profundo interesse a atividade pastoral desenvolvida pelo pai, principalmente as visitas realizadas costumeiramente aos doentes e necessitados. Neste mesmo período, uma tragédia familiar deixaria marcas profundas sobre toda a família: a morte, por afogamento, de seu sétimo irmão no temido rio do Peixe. Terminando o curso primário, prosseguiu os estudos no Instituto Educacional de Passo Fundo-RS, ligado aos metodistas.
Como era costumeiro entre filhos de missionários, embarcou para os Estados Unidos a fim de continuar sua formação acadêmica. Deixou no Brasil aquela que seria seu grande amor e companheira por um longo tempo, Edimar Rickli, também conhecida como Edi, filha de um pastor presbiteriano paranaense. Nos Estados Unidos, Paulo ingressou no curso de sociologia e política no College of the Ozarks, Arkansas. A leitura de clássicos sociológicos, assim como uma interpretação mais apurada da situação política mundial, despertou a futura vocação política do jovem catarinense. Já prestes a graduar-se em sociologia, optou por prosseguir os estudos, escolhendo o curso de pós-graduação em estudos da população da Universidade da Flórida. Entre a graduação e o mestrado, mudou-se para Los Angeles, Califórnia, onde arrumou um emprego na construção civil, envolvendo-se em greves e piquetes pela melhoria das condições de trabalho.
Este novo universo teórico e prático obtido nos Estados Unidos, aliado à sua profunda fé cristã, estimulou o jovem Paulo a retornar ao país e lutar por uma sociedade mais justa. De volta ao Brasil, estabeleceu-se em São Paulo, onde participou da pioneira experiência realizada por Richard Shaull, importante teólogo presbiteriano em atividade no Brasil, em Vila Anastácio, região operária do tradicional bairro paulistano da Lapa. Esta experiência consistia em reunir jovens cristãos sob um mesmo teto de acordo com um prisma comunitário. Estes jovens eram incentivados a estabelecer contato com os operários da região, exercendo, quando possível, a mesma função profissional. Cumprindo as promessas feitas antes de ir aos EUA, casou-se com Edi no final de dezembro de 1956, sendo a benção matrimonial impetrada por seu irmão Jaime, então um jovem pastor protestante.
Após veementes pedidos de sua esposa, retornou a Santa Catarina, estabelecendo residência em Joaçaba. Filiou-se ao Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), sendo, aos 25 anos de idade, candidato a vereador. Não conseguindo se eleger, exerceu o cargo de secretario da prefeitura.
Em 1959, o reverendo Lathan retornou aos EUA, concedendo um belo motivo para que Paulo voltasse, junto com Edi, ao mesmo projeto de Vila Anastácio. Ordenado presbítero, tornou-se um destacado líder da mocidade presbiteriana, sendo colunista freqüente no órgão oficial da mocidade da Igreja Presbiteriana do Brasil, o jornal A Mocidade. Boa parte de seus escritos girava em torno da importância da conscientização do cristão para com os problemas sociais brasileiros. Conseguiu uma vaga de torneiro mecânico filiando-se ao Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo.
Em 10 de outubro de 1959 nasceu seu filho, Charles Granville Wright. Devido a complicações no parto, mas, principalmente, à ausência de médicos no hospital público paulistano, a criança faleceu um dia após.
Profundamente abalado pelo episódio, continuou seu trabalho de conscientização político-social do povo evangélico, sendo eleito, em 1960, secretário geral da União Cristã de Estudantes do Brasil. No I Encontro Sul- Americano sobre o calvinismo escreveu a seguinte tese:
É certamente possível à obra humana acabar com a fome, a miséria e o analfabetismo. Nossa maneira de amar nosso próximo deve certamente ir além da ajuda que possamos dar a indivíduos necessitados; deve levar a sério nossa responsabilidade de fazer acabar a miséria e a fome, pois estas forças não têm mais poder e foram destronadas por Jesus Cristo.
Para Paulo, a atuação do cristão na sociedade deveria suplantar meras atitudes beneficentes. O crente deveria lutar por mudanças estruturais que erradicassem a miséria e a desigualdade.
No mesmo ano, retornou com sua esposa para Joaçaba, lançando-se candidato a prefeito pelo mesmo PTB. Ao término do pleito, foi derrotado pelo candidato conservador da União Democrática Nacional (UDN) pela ínfima diferença de 8 votos.
Não desistiu da carreira política, sendo nomeado pelo governador de Santa Catarina, ligado ao aliado PSD, diretor da Imprensa Oficial do Estado. Tal função burocrática não conteve o ímpeto do jovem político, que se engajou em movimentos pró-revolução cubana e organizou, diretamente, 27 cooperativas de pescadores no litoral catarinense. Ao mesmo tempo, era um presbítero bastante atuante na Igreja Presbiteriana de Florianópolis, sendo um dos principais organizadores da polêmica conferência do Nordeste organizada pela Confederação Evangélica do Brasil.
No entanto, toda a militância de Paulo Wright em vários setores da sociedade civil clamava por uma função mais decisiva. Esta função seria exercida no parlamento, para o qual foi eleito deputado estadual pelo PSP, já que seu antigo partido, o PTB, não forneceu legenda. Foi um dos deputados mais votados no pleito, com aproximadamente 2.144 votos.
Como deputado estadual, lutou pelo direito dos pescadores do litoral, além de ser um sólido defensor das reformas de base promulgadas pelo presidente João Goulart. Sua atuação junto aos jovens ganhava novo vulto, mantendo contato com grupos seculares, como a Ação Popular, grupo esquerdista com forte influência católica.
Como era de se esperar, segmentos conservadores iniciaram uma forte campanha contra Paulo, acusando-o de comunista e subversivo. Passado um ano, mais precisamente em abril de 1964, os mesmos setores insatisfeitos com as reformas anunciadas por Jango organizaram um golpe militar que derrubou o presidente democraticamente eleito. Iniciava-se no Brasil uma dura e impiedosa ditadura. A maioria do povo evangélico brasileiro, influenciada por setores conservadores da igreja norte-americana, encarou o golpe de 64 como uma “resposta de Deus contra o comunismo ateu”. Mais uma vez a igreja se colocava ao lado dos poderosos.
Paulo Wright sentiu rapidamente os horrores da perseguição. Devido a sua postura esquerdista, teve o mandato cassado pela Assembléia Legislativa de Santa Catarina. Ferozmente perseguido, dirigiu-se a Curitiba, embarcando posteriormente para México e Cuba. Durante todo o tempo em que permaneceu nos dois países, manteve freqüente correspondência com sua esposa e queridos.
Vivendo em Cuba, Paulo passou por uma sólida mudança política, chegando a defender, até mesmo, uma revolução armada para que o socialismo fosse implantado no Brasil. Não obstante, continuava a professar a fé cristã, deixando claro que sua profissão de fé evangélica não era incompatível com sua tendência socialista:
Creio que a fé cristã não se identifica com nenhum sistema particular. Ao mesmo tempo o homem pode ser socialista e os fatos dizem que muitos cristãos o são. Entendo que nós, como cristãos, temos a obrigação de reagir precisamente na hora que nos toca viver. No mundo de hoje se vislumbra uma coincidência entre as aspirações dos cristãos e dos socialistas quanto à vida humana, isto é, justiça e bem estar do homem.
Após um bom tempo em Cuba, retornou ao Brasil como um dos principais lideres da Ação Popular Marxista-Leninista, um dos vários grupos de esquerda que lutavam contra a ditadura militar. Vivendo na clandestinidade, viu seu casamento chegar ao fim.
Em 1973, foi detido em São Paulo e levado para o DOI-CODI, onde provavelmente foi torturado e morto pela repressão. Este foi o fim de Paulo Wright, esquecido por parcela significativa da esquerda brasileira e da igreja que tanto amou.
Seu exemplo de vida, contudo, não foi em vão. O irmão Jaime Wright, pastor da Igreja Presbiteriana Unida do Brasil (IPU), foi responsável pela organização de um dos mais completos dossiês a respeito dos crimes cometidos pelo regime ditatorial, lançado como livro sob o título Brasil nunca mais. Colaborou com este trabalho o então arcebispo católico Dom Paulo Evaristo Arns, um dos ícones do catolicismo progressista brasileiro.
* André Tadeu de Oliveira, São Paulo-SP, é jornalista e estudante de Teologia na Universidade Presbiteriana Mackenzie. Este texto foi publicado inicialmente na revista Alvorada, veículo da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil.
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Da Embaixada dos EUA em Brasília
Setembro de 1974
Da Embaixada dos EUA em Brasília
Para Secretário de Estado Washington DC
Info Cônsul dos EUA em São Paulo
Cônsul dos EUA em Recife
Cônsul dos EUA no Rio de Janeiro
Cônsul dos EUA em Salvador
Assunto: Paradeiro de Paulo Stuart Wright
1. O Congen de São Paulo informou a ocorrência de novos contatos com partes interessadas no caso Wright, conforme
segue: (Abre aspas) O reverendo James N. Wright, presidente de um grupo missionário presbiteriano no Brasil, nos
autorizou a ler um arquivo que mantém sobre seu irmão, Paulo Stuart, que inclui cópias de correspondências entre
vários senadores americanos e seus eleitores, correspondências entre esses senadores e o Departamento, recortes de
jornais brasileiros e americanos, cópia de carta enviada pelo reverendo ao presidente Geisel (28 de maio de 1974) e
cartas diversas de apoio de várias organizações religiosas. O reverendo Wright também nos entregou uma cópia de um
documento jurídico redigido pelo professor da Escola de Direito da USP Goffredo da Silva Telles Júnior e pela
procuradora de São Paulo Maria Eugênia Rapose da Silva Telles argumentando que Paulo Stuart não perdeu sua
cidadania norte-americana pelo fato de ter exercido seus direitos políticos de cidadão brasileiro no Brasil”.
2. Na medida em que algumas das cartas dos senadores ao secretário de Estado (às quais não havíamos tido acesso
antes) e outros recortes contêm referências a alegadas instâncias em que Paulo Stuart teria sido visto após sua prisão em
setembro de 1973, repassamos outra vez os fatos que se seguiram à prisão de Wright tanto com o reverendo Wright
quanto com o advogado José Carlos Dias, numa tentativa de distinguir os fatos dos rumores.
3. As observações do reverendo Wright e de Dias podem ser resumidas da seguinte maneira: Paulo Stuart Wright foi
visto pela última vez por uma fonte amigável em 5 de setembro de 1973 na sala de identificação do DOI (Operação
Bandeirantes) em São Paulo. A testemunha em questão, que é a mesma mulher mencionada nos parágrafos 2 e 3, reftel
(A), evidentemente foi libertada pouco depois disso. Após sua soltura, ela retornou diariamente ao DOI para deixar
comida para Paulo Stuart com o guarda, já que não foi autorizada a ver Paulo Stuart ou entregar comida a ele
pessoalmente. Essa prática continuou até a última semana de setembro de 1973, quando ela foi informada de que Paulo
Stuart não estava mais sendo mantido no local. Possivelmente porque o Cenimar, no Rio, na época era o maior
interessado em investigar as atividades da Ação Popular (AP), ela presumiu que Paulo Stuart tivesse sido transferido
para essa sede. Entretanto, nem o reverendo Wright, nem o advogado Dias puderam confirmar o relato de 26 de
novembro de 1973 de Marvine Howe, publicado no “New York Times” de 29 de novembro, segundo o qual “a última
notícia a respeito do sr. Wright foi dada por um(a) amigo(a) que disse que ele foi visto 23 dias atrás no Centro Nacional
de Informações da Marinha, uma unidade de Inteligência no Rio de Janeiro”.
4. Outra informação que o reverendo Wright acredita que tende a confirmar que Paulo Stuart teria sido detido no DOI
em São Paulo vem de um seminarista metodista em São Paulo que visitou o então chefe do DOI, major Carlos Alberto
Ulstra, algum tempo após a prisão de Wright, para perguntar sobre o bem-estar de Wright. O major teria mostrado ao
seminarista o título de eleitor de Paulo Stuart, que o reverendo Wright acredita que Paulo Stuart tinha em sua posse no
momento de sua prisão.
5. O reverendo Wright considerou inválida a possível implicação, contida na carta de 14 de novembro de 1973 do
senador Abouresk para o secretário de Estado sobre o fato de que “a prisão de Paulo Stuart Wright foi anunciada num
programa diário patrocinado pelo governo”, de que isso equivaleria ao reconhecimento da prisão de Wright pelo
governo brasileiro. O reverendo Wright afirmou que a notícia divulgada pela Voz do Brasil provavelmente em 4 de
outubro foi provavelmente um informe sobre a declaração do deputado Aldo Fagundes na Câmara relativa à prisão de
Wright. O reverendo Wright não pôde corroborar a afirmação que apareceu no artigo de 15 de novembro de 1973 do
Religious News Service (Nova York), da autoria de Gary MacEoin, dizendo que Wright teria sido torturado (no DOI de
São Paulo) até que sua identidade real fosse estabelecida, duas semanas após sua prisão. O reverendo acredita que a
fonte na qual MacEoin se baseou para fazer essa afirmação pode ter vindo de grupos de exilados brasileiros nos EUA,
alguns dos quais, ele deixou entender, podem ser provocadores “profissionais” que alimentam a imprensa americana
com informações incorretas relacionadas a Wright, em prol de seus objetivos políticos próprios.
6. O arquivo do reverendo Wright inclui um artigo publicado no “Jornal do Brasil” em 1o de novembro de 1973 que
contém a versão das autoridades de segurança brasileiras sobre um alegado incidente de troca de tiros em Recife que
teria resultado na morte de José Carlos Novais da Mata Machado, membro do comitê nacional da AP (e supostamente
filho de um ex-parlamentar e secretário de Estado de Minas Gerais) e de Gildo Macedo Lacerda (supostamente o chefe
regional da AP em Salvador). Este comunicado afirma que a troca de tiros teria ocorrido em 28 de outubro, ou seja,
teria sido posterior à prisão de Paulo Stuart em São Paulo, e não anterior a ela, como informamos previamente (reftel
B). Não obstante, o reverendo Wright e Dias ainda acreditam que o “Antonio” identificado no comunicado como sendo
o alegado assassino seria Paulo Stuart Wright. Entretanto, eles acreditam que foram os agentes de segurança, e não
Paulo Stuart, que mataram Mata Machado e Gildo e então inventaram a história sobre a troca de tiros em Recife.
7. O reverendo Wright afirmou que ele e Dias tinham procurado (e presume-se que estejam continuando em seus
esforços) localizar alguns dos 11 outros membros da AP que teriam sido capturados em São Paulo na mesma época que
Paulo Stuart e que teriam sido soltos subsequentemente, para obter outras pistas possíveis relativas ao paradeiro de
Paulo Stuart. Suas tentativas foram infrutíferas até agora: alguns indivíduos temem represálias e outros teriam sido
difíceis de localizar. Os 11 indivíduos supostamente presos em São Paulo em setembro passado evidentemente estão
entre os que figuram no artigo de 22 de agosto de 1974 de “O Estado de São Paulo” como tendo sido julgados,
juntamente com Paulo Stuart Wright, pelo Conselho Permanente de Justiça Militar da Primeira Auditoria de São Paulo
(ref C).
8. O reverendo Wright também nos deu novas informações que possivelmente lancem mais luz sobre o “rumor” do
cardeal Arns relativo ao paradeiro atual de Paulo Stuart Wright (parágrafo 1, reftel A). Confirmando uma notícia breve
que saiu recentemente na imprensa local, o reverendo Wright declarou que o bispo James S. Rausch, secretário da
Conferência Católica dos EUA, e o padre Bryan Hehir, chefe da Comissão de Justiça e Paz da Conferência Católica dos
EUA, visitaram o Brasil aproximadamente entre 23 e 28 de agosto, a convite do cardeal Arns. O bispo Rausch teria
informado o Departamento com antecedência de seus planos de viajar ao Brasil. Durante sua escala em São Paulo (23 a
25 de agosto), o padre Hehir afirmou verbalmente ao reverendo Wright que, logo antes de viajar ao Brasil, a seguinte
mensagem lhe tinha sido passada para ser transmitida ao reverendo Wright: que um exilado brasileiro que chegara
recentemente aos EUA, depois de ser libertado da prisão no Brasil, afirmara que vira Paulo Stuart Wright “um mês
antes”. O reverendo Wright disse que o padre Hehir não pôde lhe dar maiores esclarecimentos na época. O reverendo
Wright perguntou se o Congen poderia ajudá-lo a obter maiores esclarecimentos do padre Hehir. (Fecha aspas)
Ao Departamento: A) Solicitar que o Departamento entre em contato com o padre Bryan Hehir por meio da
Conferência Católica dos EUA, Washington, DC, para obter maiores informações das quais este possa dispor referentes
ao paradeiro de Wright.
B) De acordo com o parágrafo 4, State 241256 (dezembro de 1973), “se Wright for contatado pela Embaixada, ele deve
ser informado de que, embora as evidências das quais o Departamento dispõe indicam que ele se expatriou, o
Departamento está disposto a levar em conta quaisquer evidências em contrário que ele possa apresentar”. O parágrafo
final do memorando Rando a Watson datado de 21 de janeiro de 1974 afirma que “embora as informações disponíveis
indiquem que o sr. Wright provavelmente perdeu sua cidadania americana, não poderá ser feita uma determinação final
quanto ao status atual de sua cidadania americana até que ele se apresente diante de uma representação consular dos
EUA e complete os formulários previstos”. Estamos corretos ao supor que, com base no que foi reproduzido acima, o
Departamento está partindo dessa posição ao responder a todos pedidos de informações feitas por congressistas e outros
com relação à cidadania de Wright? Se não, que formulação o Departamento está usando?
Tradução Clara Allain

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