APESAR DE VCs

APESAR DE VCs
Retomaremos este Blog para postar as Histórias da Ditadura, como um BLOG janela ligado ao Blog JUNTOS SOMOS FORTES

NOSSOS HEROIS -

NOSSOS HEROIS -
Amigos(as) Criei uma pagina no FACEBOOK intitulada : NOSSOS HERÓIS. Meu objetivo é resgatar a história dos mineiros (as) que lutaram contra a ditadura militar. Fui Presidente do Comitê Brasileiro Pela Anistia/MG e estou postando todas anotações que fiz durante esse periodo. São documentos históricos e inéditos. Caso tenha interesse dê uma olhadinha Abraços BETINHO DUARTE

Friday, March 11, 2011

Arno Preis


 

ARNO PREIS (1934-1972)
Filiação: Edmundo Preis e Paulina Back
Data e local de nascimento: Forquilhinha (SC), em 08/06/1934
Organização política ou atividade: MOLIPO
Data e local da morte: 15/02/1972, em Paraíso do Norte (GO, hoje TO)
O corpo do advogado Arno Preis, integrante do MOLIPO, foi atirado diante de um coveiro no dia 15/2/1972, sem identificação nem atestado de óbito, numa terça-feira de Carnaval, com
a seguinte recomendação: “Enterra de qualquer jeito. Isto é um porco”. MiltonGomes, um humilde trabalhador do cemitério de Paraíso do Norte, em Goiás, não retrucou diante dos
policiais militares, mas olhou penalizado para o cadáver mutilado e pensou: “Isso não é um porco, este é um homem. Alguém um dia virá procurar por ele”. Tomou então o cuidado de
montar uma pirâmide de pedra e fincar uma cruz sobre a sepultura para demarcar o local. Sua atitude foi decisiva para que, 21 anos depois, o corpo fosse localizado.
Descendente de alemães e catarinense de Forquilinha, a mesma cidade onde nasceu Dom Paulo Evaristo Arns, Arno Preis estudou a maior parte de sua infância e adolescência em
escolas católicas, desistindo do seminário quando já estava próximo de se ordenar padre. Mudouse para São Paulo e formou-se na Faculdade de Direito do Largo São Francisco, da
USP, tendo iniciado o curso em 1957. Era poliglota, seu irmão relata que ele falava 12 idiomas, entre os quais grego, latim, romeno, alemão, russo e japonês, língua da qual traduziu três
livros para o português: Kamikaze, Cruz Vermelha e Iwo Jima. Sonhava em ser diplomata e tocava instrumentos musicais, principalmente flauta.
Arno foi militante da ALN, acusado pelos órgãos de segurança de ter participado de várias ações armadas em 1969, antes de ter viajado para Cuba, onde recebeu treinamento militar. O
“livro secreto” do Exército informa que ele comandou o Grupo Tático Armado da ALN, em 1969, após a morte de Marco Antonio Brás de Carvalho, passando a função, em seguida,
para Virgílio Gomes da Silva. Arno Preis retornou ao Brasil em 1971 como militante do MOLIPO, sendo deslocado para o norte de Goiás, hoje Tocantins, onde essa organização
clandestina trabalhava para implantar uma base revolucionária, ao que tudo indica, Arno vinha atuando em interligação com as atividades de Jeová Assis Gomes e Ruy Berbert, mortos
no mês anterior, conforme já relatado.
A falsa versão da sua morte foi anunciada no jornal Folha de S. Paulo em 22/03/1972, obedecendo a uma fórmula repetida inúmeras vezes pelos órgãos da repressão para acobertar
execuções: “ao ser abordado pelas forças policiais, reagiu a tiros”. Seu corpo só foi localizado em 1993, depois de longas buscas, feitas pelo colega de faculdade e amigo Ivo Sooma.
Para isso, foi providencial o gesto do coveiro que marcara a sua tumba. A exumação e a identificação da ossada de Arno ocorreram com o apoio da Comissão Externa da Câmara dos
Deputados, presidida na época pelo deputado Nilmário Miranda. No dia 09/04/1994 os restos mortais do advogado foram sepultados oficialmente, após homenagem em São Paulo,
depois na Assembléia Legislativa de Santa Catarina, e finalmente em Forquilhinha (SC), sua terra natal.
O laudo da necropsia, lavrado com o nome falso – Patrick McBundy Cormick – é bastante genérico, atestando como causa da morte “hemorragia interna, possivelmente produzida por
projétil de arma de fogo” e grande número de orifícios “parecidos” com tiros, “provavelmente” de calibre 38. Mesmo sendo impreciso, esse laudo já deixava evidências de que Arno
não tinha sido morto em tiroteio, pois menciona feridas feitas por faca ou baioneta: “(...) apresentava lesões perfurocortantes (...) na linha axilar anterior, ao nível do mamilo esquerdo (...)”.
Os exames feitos durante a exumação não acrescentaram detalhes conclusivos, mas a apreciação pericial do legista Celso Nenevê durante os trabalhos da CEMDP forneceu as
evidências da execução. O perito confirmou as lesões produzidas por arma branca : “(...) as lesões perfuro-incisas, conforme descritas, são produzidas por instrumentos de natureza
perfurocortantes, ou seja, dotados de ponta e gume (...)”.
E reforça a interpretação de que Arno estava vivo, mas imobilizado, quando foi cortado à faca ou baioneta. Nenevê ressaltou ainda que o exame da única foto disponível revelava
contradições entre a posição da arma e do coldre.
A versão oficial de que Arno estaria em um bar, às 3 horas da madrugada, com a presilha da capa da arma visível, tendo aberto fogo ao ser abordado foi igualmente contestada por
alguns integrantes da CEMDP. Diz o parecer do relator: ”Nenhum guerrilheiro agiria com tamanha irresponsabilidade na sua vida clandestina. Muito menos Arno Preis, com sua
experiência, andaria em bares ou bailes de madrugada, com arma e dinheiro aparentes”.
Na primeira vez em que a CEMDP julgou o caso, essas evidências não foram suficientes para enquadrar o caso de Arno na Lei nº 9.140/95.
Houve apenas dois votos defenderam o deferimento, entre os sete membros da CEMDP. A maioria indeferiu o pedido por considerar que Arno morrera em conseqüência do tiroteio
travado, que causou a morte de um policial militar (Luzimar Machado de Oliveira) e ferimentos em outro (Gentil Pereira Mano). Esse primeiro veredicto motivou protestos veementes
por parte dos familiares e de entidades ligadas à defesa dos Direitos Humanos. Com a nova redação introduzida pela Lei nº 10.875/04, a amplitude dos benefícios foi estendida, o prazo
para apresentação de requerimentos foi reaberto e o processo retornou à Comissão Especial, sendo então aprovado por unanimidade.
Após a aprovação do processo, o jornalista Luiz Maklouf Carvalho a participação do coronel do Exército Lício Augusto Ribeiro Maciel na morte de Arno Preis, informação que
desmontou a versão oficial que falava da casualidade do encontro e da displicência de Arno ao chegar à cidade. Esse oficial, conforme já mencionado no capítulo sobre a Guerrilha do
Araguaia, teria marcante participação nas operações de repressão àquele movimento, a partir de abril de 1972.
Em correspondência ao então Ministro Nilmário Miranda, o jornalista Maklouf retransmitiu as palavras do próprio Lício: “O Arno Preis foi eliminado na mesma área (ao longo da
Belém-Brasília, em Paraíso, uma vila na época); acuado num matagal às margens da rodovia, não se entregou e foi alvejado utilizando-se faróis de caminhões, para evitar a fuga.
Conseguiu matar dois militares, um morreu na hora, outro, depois. (...) O Arno Preis, verdadeiro cão raivoso que, a despeito de todo o aparato e apelos para que se entregasse,
desabalou em corrida para a mata, assinando a própria sentença de morte: suicidou-se claramente. Teria sido mais rápido ter tocado fogo na toceira de capim seco em que se
escondeu, à beira da estrada, a ter que esperar que ele se arrependesse e se entregasse. Pensou que de noite conseguiria fugir ao cerrado tiroteio que aconteceu, pois ninguém é
trouxa. Foi preparada uma cortina de chumbo quente eele que escolheu (...)”.
==========================================================================================================================
+ informações.

Declarações feitas por seu irmão João Preis, por ocasião do traslado dos seus restos mortais, em 9 de abril de 1994:
“Natural de Forquilhinha, Santa Catarina, Arno Preis era filho de Paulina Back e Edmundo Preis. Estudou no Seminário dos padres Franciscanos em Santa
Catarina e, em São Paulo, formou-se em Direito pela USP. Brilhante, inteligente, entusiasta, queria ser Diplomata. Falava 12 idiomas.
“Mas os tempos eram duros. A pátria vivia sob um regime ditatorial militar e Arno, como centenas de jovens, decidiu que primeiro era necessário derrubar a
ditadura para depois realizar seus sonhos”.
De Ivo Sooma, advogado e amigo de Arno Preis:
“Foi ele morto no dia 15 de fevereiro de 1972, em confronto com policiais militares e civis da então Paraíso do Norte de Goiás, e enterrado no cemitério local,
sem guia de sepultamento, nem lavratura de óbito.
À época, policiais entregaram seu corpo ao coveiro, dizendo-lhe: ‘Enterra de qualquer jeito. Isto é um porco.’
O coveiro, Milton Gomes, pensou consigo: ‘Isto não é um porco. Este é um homem. Alguém um dia virá procurar por ele.’
Tomou então o cuidado de, junto ao local do sepultamento, erguer uma pequena pirâmide de concreto, sobre a qual fincou uma cruz de madeira, o que
iria facilitar sua posterior localização, diferentemente do que ocorreu com muitos desaparecidos políticos.
Uns dez dias depois, enorme aparato policial militar cercou o cemitério, que não tinha muros e levou um dos braços do corpo de Arno para
identificação. O próprio governo reconheceu sua morte, segundo notícias publicadas nos jornais, em março de 1972, com a versão oficial de morto ao
tentar fugir. Seu corpo e atestado de óbito não foram entregues à família até 1994. Foi enterrado com o nome de Patrick McBund Cornik.
Identificado, em 22 de março de 1972, a imprensa noticiou sua morte como a de um líder terrorista.
Pertencera ele à ALN, fundada sob a liderança de Carlos Marighella, estivera em Cuba e retornara integrando o MOLIPO.
Quem era Arno Preis antes de entrar na guerrilha?
Conheci-o em 1957, quando, sendo eu secundarista, ingressou ele na
Faculdade de Direito do Largo São Francisco.
Chamou-me a atenção a maneira determinada com que perseguia seus objetivos.
Pretendia ele prestar concurso no Itamarati e seguir a carreira diplomática.
Vocacionado para uma carreira de diálogos e negociações, acabou por empunhar armas e morrer em cidade do interior de Goiás.
Tomados de indignação cívica, centenas de jovens dobraram as folhas de seus livros, uniram-se a pessoas de outras origens que também deixaram
suas rotinas e foram enfrentar o sacrifício. Muitos, o martírio.
Não fosse o fechamento de todos os canais de comunicação entre a Nação e o Estado, o Brasil não teria amargado a perda de muitos de seus mais
dignos e generosos filhos.
Arno Preis, como tantos outros, dobrou uma folha do livro da História e imolou-se no sertão de Goiás, passando a ser parte da própria História.
Compete a nós, agora, retomar a sua leitura, a partir das novas páginas que foram escritas.”
Passados 22 anos, familiares e amigos localizaram o seu corpo com o apoio e o respaldo dado pela Comissão Externa da Câmara Federal, presidida pelo
deputado Nilmário Miranda, que acompanhou a exumação e a identificação das ossadas e seu sepultamento oficial em 9 de abril de 1994 na cidade de
Forquilhinha. Em 15 de outubro de 1993 seus restos mortais foram exumados do Cemitério de Tocantins e levados para o IML/Brasília.
No traslado de recebeu várias homenagens: na Câmara Federal em Brasília, em São Paulo, na Assembléia Legislativa de Florianópolis e em Criciúma, sua terra
natal, onde teve um enterro digno.
Derlei de Lucca, professora e companheira de militância política, escreveu este
artigo-homenagem a pedido do Jornal da Manhã, de 03 de maio de 1994:
“Carta Aberta ao Arno Preis
Criciúma, 29 de abril de 1994.
Arno,
Você não ia acreditar mas Nelson Mandella é o favorito nas eleições
presidenciais da África do Sul. Acusado de terrorista, subversivo, como tu, cumpriu
29 anos de cadeia.
Isak Shamir acusado de subversivo e terrorista pelos ingleses é Primeiro
Ministro em Israel.
Yasser Arafat o líder da OLP acusado de terrorista e subversivo foi recebido
pelo Presidente dos Estados Unidos, em dezembro do ano passado, e é recebido na
ONU como chefe de Estado.
Forquilhinha já é município e está orgulhosa de ti. Lurdes, Zilda, tia, sobrinhas
e primas, estão mobilizando a cidade pra te levar flores.
Existe um aparelhinho chamado FAX. Em questão de segundos a gente se
comunica com o mundo, mandando documentos.
Meu filho estuda automação na UFSC.
Dulcinha, Amelinha, Suzana estão tristes com a confirmação da tua morte, mas
firmes organizando as homenagens.
O Ivo Sooma foi heróico. Realmente quem tem um amigo tem um tesouro. Ivo é
o teu tesouro.
Nilmário, Genoíno, Zé Dirceu são deputados federais, Brizola é governador do
Rio. Tem um operário do ABC candidato a Presidente da República.
Betinho renegou a luta armada, mas dirige uma campanha linda contra a fome
e a miséria. Mobilizou o país todo.
Tu fazes muita falta. Serias nosso Ministro das Relações Exteriores, brilhante,
defendendo as posições do Brasil no mundo. Ia esquecendo: o Brasil reatou relações
diplomáticas com Cuba. Eu já voltei lá algumas vezes com passaporte e tudo,
legalmente. A gente não diz mais ‘turma’, diz ‘galera’.
Fumar não é mais moda, é cafona, coisa de Boko Moko. Nada melhor do que
um dia depois do outro. Seja feliz no céu protegendo a nossa terra. Aqui tu não serás
esquecido.”
========================================================================
Escreveu Pedro Tierra: “Sobrevivi. Levarei na pela e na alma o nome de meus mortos.”
Sentimos na pele e na alma a dor dos nossos familiares ao examinar - com lupas e lentes - as fotos de seus corpos dilacerados encontradas nos poucos arquivos que nos foram franqueados. Vivenciamos o pesadelo e a tristeza de descobrir, no andamento deste trabalho, que muitas das versões de mortes em tiroteios que sustentávamos no nosso Dossiê dos Mortos e Desaparecidos eram falsas e que, na verdade, nossos familiares haviam sido baleados, presos e mortos à míngua, sob tortura, ou executados sem chance de defesa. A ditadura institui legalmente a pena de morte, mas preferiu praticá-la com crueldade e fora dos tribunais.

Quantos anos levamos para conhecer a extensão dos crimes praticados pelos nazistas? Há que lembrar porque decidiram cremar os corpos – para que os mortos não pudessem ser pranteados, para que suas vidas fossem esquecidas. Assim fez a ditadura militar brasileira. Quantos anos levaremos ainda para conhecer a extensão de seus crimes e punir os responsáveis?

Os familiares de mortos e desaparecidos nunca buscaram indenização. Lutamos por Verdade e Justiça, pelo esclarecimento circunstancial das mortes e desaparecimentos, pela busca e identificação dos corpos, pela punição dos responsáveis.

Após 25 anos da promulgação da anistia, o Brasil ainda não conhece a totalidade dos mortos e desaparecidos na luta contra a ditadura. Muitos dos casos que examinaremos foram indeferidos durante a fase anterior porque os principais arquivos dos órgãos repressivos não foram abertos.

A Lei 10.875/04 fará a correção das injustiças cometidas nos indeferimentos anteriores, mas nossa luta por Justiça persistirá - em homenagem a Arno Preis e a todos os que deram suas vidas por liberdade e justiça social.

Venceremos!

Militância Política e fatos:

Arno nasceu em Forquilhinha, Santa Catarina, em 8 de julho de 1934, filho de Paulina Back e Edmundo Preis. Estudou em seminários católicos desde os 7 anos, tendo uma educação rígida para os preceitos religiosos, mas desistiu da batina antes da ordenação. Foi para São Paulo e formou-se em Direito na Faculdade do Largo São Francisco.

Brilhante, inteligente, entusiasta, tocava flauta e queria ser diplomata. Falava 11 idiomas: japonês, grego, latim, inglês, italiano, francês, espanhol, romeno, alemão, russo. Traduziu três livros do japonês para o português: Kamikaze, Cruz Vermelha e Iwo Jima.

Começou sua militância na Ação Libertadora Nacional - ALN e a seguir integrou-se ao Movimento de Libertação Popular - Molipo, dissidência da ALN.

A versão oficial de sua morte foi publicada nos jornais de 22 de março de 1972, como tendo ocorrido no dia 15 de fevereiro de 1972.

O jornal Folha de São Paulo publicou:

"(...) Os órgãos de segurança revelaram ontem que o terrorista Arno Preis foi morto dia 15 do mês passado (terça-feira de carnaval) na cidade goiana de Paraíso do Norte. Justificou-se o atraso na divulgação pela necessidade de investigações sigilosas após o incidente. (...) Ao ser abordado pelas forças policiais, reagiu a tiros, matando Luzimar de Oliveira e ferindo gravemente Gentil Mano, ambos da PM goiana. (...) Na noite de 15 do mês passado, Arno Preis estava no Bar São José, sede do Clube Social de Paraíso do Norte. Era noite de carnaval. Abordado pelos elementos de segurança, identificou-se como Patrick Mc Burdy Cormick, apresentando identidade falsa. Os policiais aguardaram que Preis saísse do baile, quando foi convidado a ir à delegacia. Naquele momento, sacou de um revólver e disparou à queima-roupa contra dois soldados PMs, correndo, em seguida na escuridão, rumo a um matagal. (...) O refúgio de Preis foi cercado, iluminado por faróis de carros, transformando-se em palco de intenso tiroteio, resultando na morte do terrorista (...)."

Foi enterrado no cemitério local, sem guia de sepultamento, nem lavratura de óbito. Somente em 1993 a família ingressou com ação para retificar os registros de óbito, tendo o traslado ocorrido em 1994.

As informações sobre a morte de Arno, bem como o local de sepultamento foram investigadas em 1980 pelo advogado Ivo Sooma, seu colega de faculdade, e amigo para todas as horas.

Do relato de Ivo:

"(...) Os policiais entregaram seu corpo ao coveiro, dizendo-lhe: ‘Enterra de qualquer jeito. Isto é um porco'. O coveiro, Milton Gomes, pensou consigo: ‘Isto não é um porco. Este é um homem. Alguém um dia virá procurar por ele.’ Tomou então o cuidado de, junto ao local do sepultamento, erguer uma pequena pirâmide de concreto, sobre a qual fincou uma cruz de madeira, o que facilitou a localização em 1993, com o apoio e o respaldo dado pela Comissão Externa da Câmara Federal, presidida pelo então deputado Nilmário Miranda, que acompanhou a exumação e a identificação das ossadas e seu sepultamento oficial em 9 de abril de 1994 na cidade de Forquilhinha, após homenagens por ocasião do traslado na Câmara Federal, na USP, em São Paulo, na Assembléia Legislativa de Florianópolis, em Criciúma e Forquilhinha, sua terra natal (...)"

Ainda do relato de Ivo Sooma, destacamos de sua conversa com o coveiro Milton:

"(...) Afirma Milton que tem muita coisa a contar e que existem várias pessoas na cidade que também têm coisas para dizer. O bate-pau, (refere-se ao policial que era motorista de taxi - Luzimar Evaristo de Oliveira) e muita gente ficou rica. Passado mais de um ano foi encontrada a mala de Arno, jogada, abandonada em um terreno baldio. (...) Diz que, segundo ouviu dizer, Arno foi intimado por Luzimar e Gentil para ir à Delegacia, tendo se recusado. Luzimar sacou a arma e Arno atirou nele e em Gentil, correndo em seguida. A mala, que estava no taxi, ficou ali mesmo. Quando corria, foi atingido na perna por um tiro disparado pelo sub-delegado Benedito (do DOPS/GO). Parou em um terreno baldio onde havia um toco, atrás do qual se escondeu. Foi feito um cerco, de que participaram também populares. Foram buscar balas de fuzil com o delegado, capitão Alaor. Atingiram Arno. Na opinião de Milton, Arno foi morto na delegacia, pois tinha um tiro no ouvido. (...) Uns dez dias depois chegaram vários aviões. O cemitério, que na época não tinha cerca, foi todo cercado por aparato policial militar. Levaram o braço de Arno (...)."

O laudo de necropsia, assinado pelo Dr. Sandoval de Sá, com o nome de Patrick McBundy Cormick, de uma forma genérica e irresponsável atesta como causa da morte possivelmente hemorragia interna, possivelmente produzida por projétil de arma de fogo. Registra ainda que o corpo teria grande número de orifícios parecidos com tiros e que provavelmente seriam do calibre 38, como se fosse possível uma pessoa capacitada para elaborar um laudo cadavérico não ter a certeza se as lesões são ou não produzidas por arma de fogo. O que não é possível determinar cientificamente é o calibre das balas que teriam originado os tiros. Diz o laudo:

"(...) apresentava lesão perfuro-cortante sob reborda costal direita de mais ou menos 15 cm de diâmetro (...) lesão idêntica, porém de menor diâmetro, mais ou menos 10 cm, na linha axilar anterior ao nível do mamilo esquerdo; (...) deve-se deixar claro que além destas lesões o cadáver apresentava um grande número (total de 18) orifícios em todo o tórax e pescoço parecidos com aqueles produzidos por projéteis de armas de fogo, possivelmente de calibre 38 (...)."

Apesar das lesões à faca ou baioneta, a versão da morte em tiroteio é mantida no auto de resistência e nos depoimentos de policiais e civis prestados na Delegacia de Polícia de Paraíso do Norte nos dias 15, 19, 20 e 21 de fevereiro de 1972 (fls. 24 a 37), com informações contraditórias que visam reforçar a versão oficial.

Luzimar Evaristo de Oliveira relata:

"(...) que no dia 14 do corrente mês, cerca das 03 horas da manhã, o declarante se encontrava no (....) Bar São José, em companhia dos policiais Luzimar Machado de Oliveira e Gentil da Costa Mano e o agente de polícia Benedito Luiz de Paiva, quando entrou no referido bar um indivíduo de mais ou menos 36 anos de idade, que após falar boa noite aos presentes se recostou no balcão do bar, ficando numa posição que mostrava acintosamente que portava uma arma de fogo, sendo que era bem visível a presilha da capa da arma e inclusive o espelho da mesma (...)."

O relato segue dizendo que Arno teria se identificado a pedido de Luzimar e solicitado informações de um local para dormir, tendo como resposta que o único disponível ficava a 2 km do centro, tendo o próprio Luzimar se oferecido para levá-lo, por ser motorista de taxi. O mesmo Luzimar resolveu pedir a Arno que apresentasse seu porte de arma, já que a mesma era visível. Arno teria respondido não ter porte, sendo convidado a comparecer à DP. Como resposta, de imediato, Arno teria atirado em Luzimar e em Gentil.

Declara ainda que antes de começar a atirar, Arno passara a pasta que portava da mão esquerda para a direita. Arno era destro, porquê, então, a referência a esse detalhe? Digo que certamente foi para justificar o fato de que a cena da morte foi montada com a arma junto à mão esquerda, como se vê na única foto resgatada.

A versão é uma paródia. É totalmente inverossímil, pois jamais um guerrilheiro com o preparo de Arno Preis teria tido comportamento tão grotesco. As condições de clandestinidade em que vivia jamais permitiriam tais atitudes.

Benedito Luiz de Paiva, do DOPS, faz depoimento semelhante, acrescentando alguns outros absurdos, como o de que Arno, ferido por ele em uma perna, teria se refugiado junto a um toco, onde estava tranqüilo fumando, enquanto o cerco se montava.

De todas as versões oficiais, certamente a leitura dos depoimentos tomados torna esta uma das mais fantasiosas. Hora dizem que foi pedida a identidade a Arno ao chegar, hora que só souberam da identidade do morto depois da morte. O desaparecimento da pasta de Arno tem diversas versões, ninguém sabe e ninguém viu, pois dizem que conteria muito dinheiro. Todos são unânimes, entretanto, ao dizer que Arno foi cercado e morto a tiros.

Mas teria sido mesmo assim? Talvez Arno tenha realmente chegado na madrugada, talvez em função das quedas seqüenciais que atingiam o Molipo, mas nunca agiria como descrito.

E os ferimentos à faca ou baioneta? Foram produzidos como e quando? Não há qualquer referência a eles nos depoimentos tomados.

Buscando elementos para desmascarar a versão oficial, foi solicitado parecer do perito Celso Nenevê, anexado às fls. 73 a 79.

O perito refere-se à precariedade e omissões do laudo, feito na própria DP, restringindo-se à análise externa das lesões. Ressalta o que diz o próprio laudo:

"(...) evidentemente, se houver interesse, as regiões anatômicas dos orifícios podem ser determinadas e bem caracterizadas bastando que haja bastante espaço (...)."

Do exame, constata Celso Nenevê:

"(...) O signatário do laudo determina duas lesões pérfuro-incisas, quais sejam:

- lesão perfurocortante sob a reborda costal direita, de mais ou menos quinze centímetros de diâmetro, onde se via a presença de parenquima hepático bastante danificado, além de elementos normais da região;

- lesão idêntica, porém de menor diâmetro, mais ou menos 10 cm, na linha axilar anterior, ao nível do mamilo esquerdo,

que se caracterizam por serem as únicas devidamente descritas.

As lesões pérfuro-incisas, conforme descritas são produzidas por instrumentos de natureza perfurocortantes, ou seja, dotados de ponta e gume, que atuam por mecanismo misto, definido da seguinte forma:

1. penetração do instrumento contra a superfície, causando a sua penetração. A profundidade varia conforme o comprimento da lâmina e a intensidade da pressão exercida,

associado a:

2. deslizamento em profundidade produzindo cortes e promovendo, em conseqüência, a separação e secção das fibras dos tecidos transfixados.

Este efeito é notadamente perceptível pela descrição 'onde se via a presença de parênquimas hepáticos bastante danificados, além de elementos normais da região'. As feridas desta natureza são consideradas graves em função dos danos sofridos pelos órgãos atingidos.

As lesões desta natureza requerem necessariamente, quando de sua produção, uma proximidade entre vítima e agressor, o que diverge daquilo descrito nos autos, ou seja:

'(...) Não tivemos outra alternativa senão fazer fogo no indivíduo no que resultou a morte do resistente Patric Mcbund Cormick (...)'

Quanto às demais lesões produzidas por projéteis de arma de fogo, afirma o perito que a analise é prejudicada por total falta de elementos. Registra que, considerando a troca de tiros relatada, é presumível que as lesões pérfuro-incisas tenham ocorrido em momento posterior aos ferimentos perfurocontusos ou, pelo menos, depois de parte deles.

O laudo não é conclusivo quanto às lesões pela precariedade de informações.

Mas reforça nossas dúvidas, ou seja, talvez Arno ainda estivesse vivo, mas certamente imobilizado, quando foi cortado à faca ou baioneta, ou talvez valha o conhecimento dos fatos do General Gomes ao dizer que após matar um soldado da PM e ferir outro, apresentando 18 perfurações à bala no tórax e pescoço, é possível que na escuridão da madrugada, um soldado tenha furado o morto desta forma...

Celso Nenevê ressalta, ainda, que o exame da única foto disponível revela contradição entre a posição da arma e do coldre, já que a arma está posicionada junto à mão esquerda do corpo e, embora seja possível empunhar uma arma com qualquer uma das mãos, o coldre deveria estar posicionado de forma condizente.

Não temos, ainda, como recuperar os fatos que envolveram a morte de Arno Preis. Ficam muitas perguntas sem resposta não só quanto às reais circunstâncias em que foi ferido e morto, mas especificamente quanto às condições em que chegou na cidade e foi abordado. Nenhum guerrilheiro agiria com tamanha irresponsabilidade na sua vida clandestina. Muito menos Arno com sua experiência, andaria em bares ou bailes, de madrugada, com a arma e dinheiro aparentes, como a dizer: vejam, estou armado e tenho dinheiro!

Há documentos oriundos dos arquivos do DOPS, um deles anexado ao processo, que demonstram estar o Molipo convivendo com um agente infiltrado. As mortes de militantes da organização que se iniciam em novembro de 1971 praticamente comprovam o fato. A tentativa de preservar a identidade de seu agente, poderia justificar versão tão grotesca. Fato é que os órgãos repressivos estavam na região. Em 02 de janeiro, em Natividade, prenderam, assassinaram e desapareceram com Ruy Carlos Vieira Berbert, somente localizado em 1991, com a versão de suicídio na DP de Natividade e enterrado com nome falso; em 09 de janeiro, em Porto União, executaram sumariamente Jeová de Assis Gomes, caso já analisado quando da Lei 9.140/95 e, em fevereiro, na pequena Paraíso do Norte, em plena terça-feira de carnaval, estavam os órgãos de segurança esperando por Arno.

A dificuldade de obter a documentação necessária para provar definitiva e irrefutavelmente as circunstâncias da morte de Arno Preis pelos órgãos de repressão revela a persistência, passados mais de 30 anos, dos interesses em manter na sombra as cruéis formas de ação da ditadura militar.

Mantenho meu voto de inclusão do nome de Arno Preis dentre os preceitos da Lei 9.140/95 e, tendo em vista a ampliação dos critérios de inclusão pela Lei 10.875/04 não há mais questionamentos possíveis.

Voto pela inclusão do nome de Arno Preis dentre as vítimas fatais da ditadura militar, por entender que esta é uma reparação moral indispensável para resgatar tanto a sua memória, quanto a dignidade nacional.

Reconhecer a responsabilidade do Estado no seu assassinato é um ato do presente voltado para o futuro, representando o mais vivo repúdio à violência, ilegalidades e torturas praticadas pelo Estado durante a vigência da ditadura militar.

Suzana Keniger Lisbôa

Relatora

Comissão Especial - Lei 10.875/04

Em 26 de agosto de 2004.




-----Anexo incorporado-----

_______________________________________________
Cartaoberro mailing list
Cartaoberro@serverlinux.revistaoberro.com.br
http://serverlinux.revistaoberro.com.br/mailman/listinfo/cartaoberro

No comments: