APESAR DE VCs

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Retomaremos este Blog para postar as Histórias da Ditadura, como um BLOG janela ligado ao Blog JUNTOS SOMOS FORTES

NOSSOS HEROIS -

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Amigos(as) Criei uma pagina no FACEBOOK intitulada : NOSSOS HERÓIS. Meu objetivo é resgatar a história dos mineiros (as) que lutaram contra a ditadura militar. Fui Presidente do Comitê Brasileiro Pela Anistia/MG e estou postando todas anotações que fiz durante esse periodo. São documentos históricos e inéditos. Caso tenha interesse dê uma olhadinha Abraços BETINHO DUARTE

Friday, March 11, 2011

HELENIRA RESENDE DE SOUZA NAZARETH

 
 

HELENIRA RESENDE DE SOUZA NAZARETH (1944–1972)
Filiação: Euthália Resende de Souza Nazareth e Adalberto de Assis Nazareth
Data e local de nascimento: 11/01/1944, Cerqueira César (SP)
Organização política ou atividade: PCdoB
Data do desaparecimento: 28 ou 29/09/197
Nascida na pequena cidade de Cerqueira César, no interior paulista, próximo a Avaré, mudou-se para Assis aos quatro anos, onde cresceu.
Concluiu ali o curso Clássico no Instituto de Educação Prof. Clibas Pinto Ferraz, onde foi uma das fundadoras do grêmio de representação dos alunos. Mudou-se então para São Paulo
e cursou Letras na Faculdade de Filosofia da USP, localizada então na rua Maria Antônia, sendo eleita presidente do Centro Acadêmico. Tornou-se importante liderança no
Movimento Estudantil, sendo conhecida também pelo apelido “Preta”. A primeira prisão de Helenira aconteceu em junho de 1967, quando escrevia nos muros da Universidade
Mackenzie, na própria rua Maria Antônia, a frase: “Abaixo as leis da ditadura”. Voltou a ser presa em maio de 1968, quando convocava colegas a participarem de uma
passeata na capital paulista.
Naquele mesmo ano de fortes mobilizações estudantis, foi presa pela terceira vez em Ibiúna (SP), agora como delegada ao 30º Congresso da UNE, entidade da qual era vice-presidente.
Na ocasião, quando o ônibus que transportava estudantes presos passou pela avenida Tiradentes, Helenira conseguiu entregar a um transeunte bilhete para ser levado à sua
residência, no Cambuci, avisando a família sobre a prisão. Apontada como liderança no Movimento Estudantil, foi transferida do Presídio Tiradentes para o DOPS. Depois, a estudante
seria transferida para o Presídio de Mulheres do Carandiru, onde ficou detida por dois meses. A família conseguiu libertá-la mediante habeas-corpus na véspera da edição do AI-5. A
partir de então, Helenira, que já era militante do PCdoB, passou a viver e atuar na clandestinidade, morando em vários pontos da cidade e do país antes de mudar-se para o Araguaia.
Conhecida como Fátima naquela região, integrou o Destacamento A da guerrilha, unidade que passou a ter seu nome após sua morte, em 28 ou 29/09/1972. Teria matado um militar e
ferido outro, antes de ser ferida e morta. Metralhada nas pernas e torturada até a morte, segundodepoimento da ex-presa política Elza de Lima Monnerat na Justiça Militar, foi enterrada
na localidade de Oito Barracas.
O jornal A Voz da Terra, de Assis, publicou na edição de 08/02/1979 extensa reportagem sob o título A Comovente História de Helenira.
A matéria descreve sua juventude na cidade, filha de um médico negro, conhecido e respeitado por suas tendências humanistas. Informa também que a jovem se destacou como atleta,
com desempenho especial na equipe de basquete da cidade, uma das melhores na região sorocabana. De acordo com esse jornal, o lugar onde Helenira tombou ferida se tornou uma
poça de sangue, segundo soldados do Pelotão de Investigações Criminais, confirmando que a coragem da moça irritou a tropa.
Além da descrição de sua morte feita por Ângelo Arroyo, já registrada anteriormente, sabe-se que o Relatório da Aeronáutica, de 1993, afirma que Helenira era militante do PCdoB e
guerrilheira no Araguaia. No arquivo do DOPS/PR, sua ficha foi encontrada na gaveta com a identificação “falecidos”. No “livro secreto” do Exército, divulgado pela imprensa em abril
de 2007, consta a respeito dela na página 724:
No dia 28(de setembro de 1972), um grupo que realizava um patrulhamento quase caiu numa emboscada fatal. No entanto, falhou a arma ou fraquejou um dos terroristas e o
grupo foi alertado. Como se tratasse de uma passagem perigosa, o grupo tinha exploradores evoluindo pela mata, os quais reagiram a tempo. O terrorista cuja arma falhara
logrou fugir. O outro, que abriu fogo com uma espingarda calibre 16, caiu morto no tiroteio que se seguiu. Trata-se de Helenira Resende de Souza Nazareth (Fátima), do
destacamento A
No livro A Lei da Selva, Hugo Studart relata sua morte como ocorrendo na localidade chamada Remanso dos Botos, em choque com uma patrulha de fuzileiros navais, não do Exército,
sem confirmar a ocorrência de baixas entre os militares da Marinha, que teriam sido retirados da região em seguida, por falta de condições psicológicas para permanecerem na selva.
Studart transcreve o seguinte trecho do diário de Maurício Grabois, de autenticidade ainda não comprovada, cuja narração tem pontos comuns e pontos divergentes em relação ao
Relatório Arroyo, transcrito anteriormente:
Novas informações foram trazidas sobre o incidente em que o co Flávio tombou sem vida. Os combatentes do DA estavam preparando uma emboscada. Dividiram-se em 2 grupos
que deveriam atuar em conjunto. Um sob o comando do Pe (da CM) e outro sob a direção de Nu. Este último, que vinha na frente, deixou no caminho da corrutela de S.José dois
observadores, Lauro e Fátima, e fez alto a uma certa distância. Precisamente nesse momento surgiu na estrada uma força inimiga de 16 homens que acompanhava 4 burros
tropeados pelo Edith. À frente da unidade do Exército vinham três batedores (o que levou Isauro a pensar que a tropa era constituída apenas de 3 soldados). Um deles, o
sargento, veio para o lado do barranco onde estavam nossos combatentes. Lauro, que portava arma longa semi-automática de 9 tiros, atrapalhou-secom a arma, não atirou e
fugiu. O milico pressentiu a Fátima e disparou o FAL em sua direção. Esta, com sua arma de caça 16, o fuzilou. Em seguida, correu e se entrincheirou mais adiante. Um soldado,
que pesquisava o local à sua procura, foi por ela abatido mortalmente com tiros de revólver 38. Ferida nas pernas, foi presa. Perguntaram-lhe onde estavam seus co. Respondeu
que poderiam matá-la, pois nada diria. Então os milicos a assassinaram friamente. Seu corpo foi enterrado nas Oito Barracas, para onde foi transportado em burro”.
O relatório do Ministério Público Federal de São Paulo, assinado pelos procuradores Marlon Alberto Weichert, Guilherme Schelb, Ubiratan Cazetta e Felício Pontes Jr, de 28/01/2002,
também registra a partir de depoimentos tomados de moradores da área, quase 30 anos depois:
Fátima: HELENIRA REZENDE, foi vista por um depoente, baleada na coxa e na perna, sendo carregada em cima de um burro de um morador da região, próximo à localidade de
Bom Jesus. Outro depoente ouviu referências de que Fátima foi vista na base de Oito Barracas. E um terceiro conta que ‘ouviu falar’ ter Fátima chegado já morta em Oito
Barracas, em função de ferimentos”. Os procuradores também registram como possível local de sepultamento as proximidades do igarapé Tauarizinho, na base de Oito Barracas.
Entre 1969 e 1972, a família de Helenira foi chamada sistematicamente a prestar declarações ao DOPS/SP e ao II Exército.
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+ Informações.]
HELENIRA REZENDE DE SOUZA NAZARETH
Militante do PARTIDO COMUNISTA DO BRASIL (PC do B).
Nasceu em Cerqueira Cesar, SP, no dia 19 de janeiro de 1944, filha de Adalberto de
Assis Nazareth e Euthália Resende de Souza Nazareth.
Desaparecida, desde 1972, na Guerrilha do Araguaia, quando contava 28 anos.
Integrante do Destacamento A das Forças Guerrilheiras. Este Destacamento passou a
chamar-se Helenira Resende após sua morte.
Depoimento de Helenalda Rezende, sua irmã:
“Em que leito de rio correrá seu sangue?
Lenira , para uns ... Preta para os colegas da USP ... Nira entre os familiares,
Fátima para os companheiros do Araguaia... Helenira foi, acima de tudo, uma
cidadã brasileira consciente de seus atos, que empunhou a bandeira da justiça e da
liberdade, lutando obstinadamente até a morte.
Nascida na pequena cidade de Cerqueira Cesar, próximo a Avaré, mudou-se
para Assis aos 4 anos, onde cresceu, tendo concluído o Curso Clássico na EEPSG
‘Prof. Clibas Pinto Ferraz’. Participante da Seleção de basquete da cidade,
sobressaiu-se como uma das melhores jogadoras da região da Alta Sorocabana,
tendo também sido contemplada com várias medalhas no atletismo, na modalidade
de salto à distância.
Dedicada ao estudo da teoria marxista, desde cedo sua presença se fez sentir
como líder estudantil que, com posições avançadas defendia com firmeza suas
propostas. Fundadora e lª presidente eleita do Grêmio Estudantil da Escola, já se
pronunciava nos palanques e na Rádio Difusora de Assis, durante campanhas
políticas dos candidatos que julgava dignos de seu apoio.
E desde então, ou talvez desde o berço, foi-se formando 1íder estudantil,
grande oradora nos Congressos Estudantis e nas manifestações de rua dos anos 60.
Foi vice-presidente da UNE, em 1968.
‘Estudante nota cem’ (depoimento de uma professora), ingressou na Faculdade
de Filosofia da rua Maria Antônia, no Curso de Letras onde, através dos movimentos
estudantis, passou a viver intensamente a vida política do país. Com seus alunos de
Português de duas escolas estaduais, uma no Jardim Japão e outra em Guarulhos,
preparava peças de teatro consideradas subversivas na época.
Helenira foi presa a primeira vez quando conclamava os colegas a
participarem de uma passeata em maio de 1968, em São Paulo. E, no mesmo ano,
mais uma vez foi presa, no 30° Congresso da UNE, em lbiúna com outros 800
estudantes. Nesta ocasião, quando o ônibus que os transportava passava pela
Avenida Tiradentes, conseguiu entregar a um transeunte um bilhete que foi levado à
sua residência à Rua Robertson, no Cambuci, avisando à familia de sua prisão.
Procurada pelos policiais como Nazareth e apontada como sendo uma das líderes do
movimento, foi transferida do Presídio Tiradentes para o DOPS onde caiu nas
garras do famigerado Fleury, que a jurou de morte.
Uma outra mensagem foi entregue então, à sua familia avisando sua
localização e a dos companheiros José Dirceu, Antônio Ribas, Luís Travassos e
Vladimir Palmeira. A polícia continuava negando sua prisão, enquanto um policial
não identificado atuava como mensageiro entre o DOPS e o Cambuci. Após alguns
dias de ‘vai e vem’ ao DOPS, o contato direto com Helenira foi conseguido por
intermédio da advogada Maria Aparecida Pacheco. Alguns dias depois a
‘estudante’, como era chamada pelo carcereiro, foi transferida para o Presídio de
Mulheres do Carandiru, onde ficou detida por dois meses. Seu Habeas Corpus foi
conseguido um dia antes da edição do AI-5. A partir de então passou a viver na
clandestinidade, tendo residido em vários pontos da cidade e do país, antes de se
dirigir ao Araguaia.”
Morta a golpes de baioneta, em 29 de setembro de 1972, depois de metralhada nas
pernas e torturada. Enterrada na localidade de Oito Barracas.
No Relatório do Ministério da Marinha encontra-se a cínica “informação”de que se
encontra foragida. No arquivo do DOPS/PR, o nome de Helenira consta em uma gaveta
com a identificação: “falecidos”.
Declarações da ex-presa política Elza de Lima Monnerat, em Auditoria Militar, à
época, afirmou que “... Helenira, ao ser atacada por dois soldados, matou um deles e feriu
outro. Metralharam-na nas pernas e torturaram-na barbaramente até a morte...”
De 1969 a 1972 (mesmo após sua morte na Guerrilha do Araguaia) sua família foi
chamada a prestar declarações ao DOPS/SP e ao II Exército.
Em 06 de junho de 1979, um jornal publicou sobre Helenira que: “...o lugar onde
estava virou uma poça de sangue, conforme falaram soldados do PIC (Pelotão de
Investigações Criminais)... e confirmaram que a coragem da moça irritou a tropa. Helenira
foi morta a baionetadas!” No jornal “A Voz da Terra”, de 08 de fevereiro de 1979, há uma
extensa matéria que, sob o título “A Comovente História de Helenira”, conta a história
dessa combatente pela liberdade no Brasil. Até hoje, sua família, oficialmente, de nada foi
informada.
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+ Informações.
Carta póstuma para Helenira
» Biografias » Helenira Rezende de Souza Nazareth » Carta póstuma para Helenira
Revista Semana 3 edição 31, junho de 2005
helenira01.jpg
Querida Helenira,
Esta carta chegará com 33 anos de atraso. Mas escrevo para lhe agradecer o gesto tão nobre de ter tentado. Dizem que não se deve tentar, porque o mundo é assim mesmo. Mas é um erro achar que o mundo não muda. Se o primeiro negro norte-americano não tivesse se recusado a ceder o lugar para um branco, no ônibus, talvez o apartheid persistisse até hoje, nos Estados Unidos. A história registra inúmeros casos de sacrifícios individuais que geraram mudanças no plano coletivo.
Quando balas da ditadura vararam teu coração de mulata, estavas na flor da idade. Na poética definição de um camponês que lhe conheceu na luta, eras "a flor da subversão na boniteza". Deixastes de ser uma estudante paulista para virar heroína nacional na selva do Araguaia. Os anos passaram, o mato cresceu e a tornou parte do solo brasileiro — este solo que um dia há de ser nosso.
Quando vice-presidente da UNE, pedistes para que a juventude nunca deixasse de acreditar. Que o sonho não deveria ser inatingível pelo simples fato de ser sonho. Ora, o avião também não era um sonho antes de ser inventado? E quem diria ser possível, antes que o primeiro riscasse o céu? Por isso, quando o comandante da guerrilha lhe perguntou o que gostaria de fazer quando viesse o triunfo, respondestes sem titubear: "Quero ser crítica de arte". Uma menina carregando um fuzil e sonhando ser crítica de arte.
Há de chegar o dia, Helenira; a paciência é virtude revolucionária. Por isso alguns homens preferem não exaurir a vida e optam por trilhar o caminho da solidariedade desinteressada e da justiça. Os exemplos são incontáveis e podemos começar com Jesus Cristo, se quisermos ter um ponto de partida. Não é sintomático que todos tenham sempre o mesmo fim?
Devemos sentir orgulho. Pior seria ter ficado ao lado dos que venceram nessas batalhas. É tão certa a nossa convicção como é verde e amarela a bandeira, como é vasto o mar, como é fértil a terra. Para os arrivistas, nosso otimismo é imperdoável. Mas há motivos para crer no futuro: armas não matam idéias; e enquanto "eles" nos dão por mortos, começamos tudo de novo, como formigas reconstruindo o formigueiro após cada temporal.
Independente de qualquer ideologia, que admirável gesto dedicar a própria vida em nome de milhões de brasileiros que sequer sabiam de sua existência! Homens analfabetos, famintos, embrutecidos pelo desemprego e pelo trabalho escravo. Assim como no poema, tinhas apenas duas mãos e o sentimento do mundo.

Nos livros de escola, teu nome não aparece. Os capítulos importantes são reservados aos generais, como Duque de Caxias — o que ordenou o massacre de velhos e crianças na Guerra do Paraguai — ou a heróis consentidos, como Princesa Isabel, que assinou a Lei Áurea para evitar a revolução negra. O presente pode ser injusto, mas o futuro está do nosso lado. Não importa que tenhas caído. Certas derrotas deixam o legado de perseverança e mantêm vivas as grandes mensagens. O resto, Helenira, é a barbárie.
Ontem, visitando um amigo na Vila Esperança, me deparei com teu nome numa placa de rua — Helenira Rezende de Souza Nazareth. Ao menos ali, naquela ruazinha de terra, em Campinas, habitada por gente sofrida e trabalhadora, alguém soube de ti. Na Vila Esperança — e que nome mais sugestivo para um bairro pobre — Dona Marcolina, de 68 anos, rega diariamente a roseira que plantou ao pé da placa que leva teu nome. A flor da subversão na boniteza.
Bruno Ribeiro
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A triste história de Helenira Resende e a memória desalmada
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Mídia & Poder, 2007
Por Alzimar Rodrigues Ramalho1
Abril de 2007. Últimos capítulos da minissérie “Amazônia”, da Rede Globo de Televisão. O personagem de Chico Mendes, no momento do nascimento de sua filha, diz para sua mulher Ilzamar que vai dar o nome de Helenira à filha que acaba de nascer, em homenagem a uma mulher guerreira, que lutou pela liberdade no Brasil. Um nome que traz como significações bravura e justiça. Apesar da lembrança em rede nacional, contam-se nos dedos os nomes de pessoas que sabem quem foi Helenira. Até mesmo na cidade onde viveu grande parte da sua vida.
29 de setembro de 1972. Morre no Pará Helenira Resende de Souza Nazareth. No Araguaia era “Fátima”, “Preta” ou “Rosa”. Guerrilheira, alegre, destemida. Até hoje não foram localizados seus restos mortais. É apenas um nome nos documentos oficiais e uma lembrança carinhosa no coração de quem conviveu com ela.
11 de janeiro de 1944. Nasce de parto normal feito pelo próprio pai, na casa da família em Cerqueira Cesar (SP), a “Nira” — caçula das seis filhas de dona Euthália e do Dr. Adalberto de Assis Nazareth, o “médico dos pobres”, baiano que antes de estudar medicina tinha sido marceneiro como o pai, e grande conhecedor do marxismo. Foi também jornalista, tendo fundado e dirigido o jornal “A Semana” de Cerqueira César (SP). Quatro anos depois a família mudou-se para Assis (SP), pois além de garantir a continuidade do estudo das filhas, o dr. Adalberto já sentia-se perseguido pelos políticos e religiosos daquela cidade, pois em 47 havia sido candidato a vereador pelo Partido Comunista.
A menina feliz, que desde criança já gostava de viver diversos personagens nas brincadeiras de circo que organizava no quintal de casa; que já lutava por seus ideais como líder do grêmio como estudante secundarista; que já demonstrava seu espírito de equipe como pivô da seleção de basquete da cidade; que já antecipava sua determinação pelo ativismo político ao ser quase detida por participar de uma passeata dos ferroviários; que aproveitou um ano de pneumonia para se aprofundar nas leituras marxistas; que passou a viver mais de perto a política no “Cursinho do Grêmio” da USP em 1964; que assumiu a presidência do Centro de Letras da FFCL no ano seguinte; que começou a participar de reuniões da JUC (Juventude Universitária Católica), depois da Ação Popular (AP) e posteriormente ingressou no Partido Comunista do Brasil (PC do B); que conheceu o gosto amargo da repressão a partir de 1967 e 1968, com prisões pelo DOPS (Departamento de Organização Política e Social) sendo fichada como “ativa fanática em subversão e filha de um ativo comunista”; que foi novamente presa em 1968, no 30º Congresso Estudantil promovido pela UNE (União Nacional dos Estudantes) em Ibiúna (SP); que driblou a morte por ter sido solta do Carandiru, onde permaneceu por dois meses, um dia antes da edição do AI-5 (Ato Institucional nº 5); que a partir de então passou a viver na clandestinidade.
A notícia, sete anos depois
Em Assis, a notícia foi divulgada no dia 8 de fevereiro de 1979, quase sete anos depois de ter sido morta a baionetadas no Araguaia, após atirar no peito de um soldado enquanto outro a metralhava nas pernas, por ter se negado a dar informações sobre seus companheiros. Muitos sabiam que ela estava foragida, mas não morta. A notícia abalou a cidade.
As informações foram apuradas pelo jornalista Júlio Cezar Garcia, que na época era jornalista da Editora Abril em São Paulo, e teve acesso por meio do então ex-combatente do Araguaia, José Genoíno, sua principal fonte. Sabia-se que ela era filiada ao PC do B, mas ninguém tinha conhecimento do grau de seu envolvimento.
Júlio Garcia, que hoje é repórter do jornal Diário da Região (São José do Rio Preto-SP), conta que soube da morte de Helenira por volta de 1976, mas não conseguiu confirmar. Das informações obtidas com José Genoíno, no final de 1978, até a publicação da reportagem, foram cerca de quatro meses para romper as resistências. Apesar do processo de abertura política que o País vivia, muitos ainda tinham medo de tratar de um tema tão delicado.
A publicação da reportagem “A comovente história de Helenira”, no jornal “Voz da Terra” de Assis, foi uma revelação. Como ironiza o também jornalista Roberto Silo, “a cidade não sabia que havia a guerrilha, muito menos que havia acabado”. A reportagem de Júlio Garcia foi além do épico, revelando todo o contexto que envolvia a personagem e — principalmente — apresentando para a cidade os horrores da ditadura. A tiragem de 11.500 exemplares do Jornal “Voz da Terra” esgotou-se. Considerando quatro leitores por exemplar, a história chegou a 50 mil pessoas — quase 80% da população da época.
Mas, no dia seguinte, nenhuma linha. Nem no editorial, ou na coluna do leitor, nenhum artigo, nada. Silêncio. O editor-chefe, Eli Elias, explica que o motivo foi o medo. Outros assisenses também haviam sido perseguidos, alguns detidos. Apesar de o jornal não ter sofrido qualquer represália, permanecia o receio de tocar no assunto, ainda considerado proibido. Mas lembra que, verbalmente, a cidade manifestou apoio pela coragem da publicação.
Jornalismo tem uma queda especial por efemérides, datas cheias são sempre motivo de retomada. Em 29 de setembro de 2002, nenhuma linha. 30 anos de morte. A explicação: não havia fato novo.
29 de setembro de 2007 também pode ser emblemático: 35 anos de desaparecimento. Quem sabe Helenira mereça alguns segundos no rádio ou na TV, algumas linhas nos jornais impressos ou online. Com ou sem um fato novo. Nenhuma novidade também pode ser notícia. Ou não?
Fontes:
ELIAS, Eli. Entrevista pessoal realizada em 03 de maio de 2007.
GARCIA, Júlio Cezar. A comovente história de HELENIRA. Jornal Voz da Terra – Assis (SP) 8 de fevereiro de 1979, pp. 4-5.
GARCIA, Júlio Cezar. Entrevista pessoal realizada em 16 de abril de 2007.
MEGA, Natalie Maluf. Memórias sobre Helenira. Fundação Educacional do Município de Assis — FEMA: Assis, 2006. 62p. Monografia de conclusão do curso de Comunicação Social com Habilitação em Jornalismo.
SILO, Roberto. Entrevista pessoal realizada em 05 de abril de 2007.

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