APESAR DE VCs

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Retomaremos este Blog para postar as Histórias da Ditadura, como um BLOG janela ligado ao Blog JUNTOS SOMOS FORTES

NOSSOS HEROIS -

NOSSOS HEROIS -
Amigos(as) Criei uma pagina no FACEBOOK intitulada : NOSSOS HERÓIS. Meu objetivo é resgatar a história dos mineiros (as) que lutaram contra a ditadura militar. Fui Presidente do Comitê Brasileiro Pela Anistia/MG e estou postando todas anotações que fiz durante esse periodo. São documentos históricos e inéditos. Caso tenha interesse dê uma olhadinha Abraços BETINHO DUARTE

Friday, March 11, 2011

Manoel Fiel Filho


MANOEL FIEL FILHO (1927 - 1976)

Filiação: Margarida Maria Lima e Manoel Fiel Lima

Data e local de nascimento: 07/01/1927, Quebrangulo (AL)

Organização política: PCB

Data e local da morte: 17/01/1976, São Paulo (SP)

Essa morte ficou registrada na história do regime ditatorial em estreita conexão com a de Vladimir Herzog. Aquela provocou grande repercussão junto à opinião pública brasileira, mas

nada alterou na rotina do aparelho de segurança. A morte de Fiel, tendo ocorrido durante o recesso parlamentar e as férias universitárias, gerou noticiário mais discreto e, no entanto,

produziu abalos na estrutura do regime militar.

Reagindo a mais um suicídio forjado, o presidente Ernesto Geisel exonerou o comandante do II Exército, general Ednardo D'Ávila Mello, e tirou da chefia do CIE o general Confúcio

Danton de Paula Avelino, abrindo guerra aberta contra o seu ministro do Exército, Sylvio Frota, que seria também demitido no ano seguinte.

Alagoano de Quebrangulo, terra natal também de Graciliano Ramos, Manoel Fiel vivia na capital paulista desde os anos 50. Tinha trabalhado como padeiro e cobrador de ônibus antes

de se tornar operário metalúrgico, trabalhando como prensista na Metal Arte, no bairro da Mooca, há 19 anos. Era casado com Thereza de Lourdes Martins Fiel, tinha duas filhas, e

morava num sobrado na Vila Guarani.

Acusado por outro preso político torturado de receber alguns exemplares do jornal Voz Operária, do PCB, foi preso na fábrica, em 16/01/1976, às 12h, por dois agentes do DOI-CODI

paulista. No dia seguinte, uma nota oficial informou que Fiel Filho havia se enforcado na cela com as próprias meias. Ocorre que, quando detido, ele usava chinelos sem meias, de

acordo com depoimentos dos colegas de trabalho.

Quando os parentes conseguiram a liberação do cadáver para ser enterrado no cemitério da Quarta Parada, verificou-se que o corpo apresentava sinais evidentes de torturas,

principalmente na região da testa, nos pulsos e no pescoço. No entanto, o exame necroscópico, solicitado pelo delegado de polícia Orlando D. Jerônimo e assinado pelos legistas José

Antônio de Mello e José Henrique da Fonseca, simplesmente confirmava a versão oficial do suicídio.

O II Exército divulgou nota com o seguinte teor: "O comando do II Exército lamenta informar que foi encontrado morto, às 13h do dia 17 do corrente, sábado, em um dos xadrezes

do DOI-CODI/II Exército, o Sr. Manoel Fiel Filho. Para apurar o ocorrido, mandou instaurar Inquérito Policial-Militar, tendo sido nomeado o coronel de Infantaria QUEMA

(Quadro do Estado Maior da Ativa) Murilo Fernando Alexander, chefe do Estado Maior da 2ª Divisão de Exército". O coronel Murilo Alexander - lembra Elio Gaspari em A

Ditadura Encurralada - era o mesmo oficial que tinha levado o cadáver de Chael Charles Schreier ao Hospital do Exército, no Rio, em 22/11/1969, tentando dissimular aquela morte

sob torturas, sendo também apontado como um dos autores de inúmeros atentados terroristas de direita ocorridos em 1968.

O IPM foi concluído no prazo previsto de 30 dias. O procurador militar Darcy de Araújo Rebello, no parecer, datado de 28/04/1976, pediu o arquivamento do processo alegando que:

"As provas apuradas são suficientes e robustas para nos convencer da hipótese do suicídio de Manoel Fiel Filho, que estava sendo submetido a investigações por crime contra a

segurança nacional. (...) Aliás, conclusão que também chegou o ilustre Encarregado do Inquérito Policial Militar".

Os companheiros de fábrica de Manoel Fiel publicaram uma nota, por intermédio do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo, onde relatam com detalhes o ocorrido. "Manoel Fiel, no

dia 16/01/1976, havia sido detido ilegalmente às 12h por dois policiais que se diziam funcionários da Prefeitura, na fábrica onde trabalhava, a Metal Arte. Puseram-no num

carro, foram até sua casa que foi vasculhada por eles. Nada encontraram que pudesse incriminar Fiel Filho. Diante de sua mulher - Tereza de Lourdes Martins Fiel - levaram-no

para o DOI-CODI do II Exército, afirmando que ele voltaria no dia seguinte. Mas ele não voltou. No dia seguinte, um sábado, às 22h, um desconhecido, dirigindo um Dodge

Dart, parou em frente à casa do operário e, diante de sua mulher, suas duas filhas e alguns parentes, disse secamente: 'O Manoel suicidou-se. Aqui estão suas roupas.' Em seguida,

jogou na calçada um saco de lixo azul com as roupas do operário. Sua mulher então começou a gritar: 'Vocês o mataram! Vocês o mataram!'"

O relato prossegue: "Naquela trágica noite, os parentes que foram até o IML tentar recuperar o corpo do operário morto, sentiram-se pressionados.

As autoridades só entregavam o corpo com a condição de que Fiel Filho fosse sepultado o mais rapidamente possível e que ninguém falasse nada sobre sua morte. No domingo,

dia 18, às 8h da manhã, ele foi sepultado. Obrigadas ao silêncio, a viúva e as filhas nem mesmo se manifestaram quando o então comandante do II Exército, general Ednardo

D'Ávila Mello, foi exonerado do seu cargo". Os operários mostravam-se inconformados e pediam justiça: "(...) Em apenas 20 dias, foi feito um inquérito e, mesmo sem qualquer base

legal ou provas concretas, concluiu pelo 'suicídio'. Logo depois, o processo foi arquivado. Dois anos se passaram em silêncio. Até que se pode provar que, antes de morrer, o

operário sofrera torturas. Gritava de dor e pedia aos seus torturadores: 'Pelo amor de Deus, não me matem'. Seus gritos foram

sumindo durante as torturas até que acabou morrendo estrangulado. Não fora suicídio".

Em 1978, a Comissão Justiça e Paz da Arquidiocese de São Paulo, então integrada por José Carlos Dias, José Gregori, Margarida Genevois, Hélio Bicudo, dentre outros defensores dos

Direitos Humanos, tomou depoimentos dos presos políticos que presenciaram as torturas do operário. Em 1980, foi lançado o livro Manoel Fiel Filho: quem vai pagar por este

crime?, de Carlos Alberto Luppi, pela Editora Escrita. No IPM, a família do operário foi representada pelo advogado Belisário dos Santos Junior, que em 2001 passaria a fazer parte da

CEMDP, sendo hoje o seu mais antigo integrante. Ação cível proposta contra a União Federal e patrocinada pelos advogados Marco Antônio Rodrigues Barbosa, Samuel

Mac Dowell Figueiredo e Sérgio Bermudes, após vários anos de tramitação na Justiça Federal, foi julgada procedente em 1995, com a condenação da União e o reconhecimento de sua

responsabilidade pela prisão ilegal, tortura e morte de Manoel Fiel Filho.

A notoriedade do caso determinou a aprovação unânime pelos membros da CEMDP, sem qualquer controvérsia. A própria exoneração do comandante do II Exército tinha equivalido

ao expresso reconhecimento da responsabilidade do Estado pela morte sob torturas de mais um opositor político do regime militar. Na contagem de Elio Gaspari, no livro citado,

"Manoel Fiel Filho fora o 39º suicida do regime, o 19º a se enforcar. Como Cláudio Manuel das Costas, com as meias, sem vão livre".

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+ Informações.

MANOEL FIEL FILHO

Nasceu aos 7 de janeiro de 1927 em Quebrângulo, Estado de Alagoas, filho de

Manoel Fiel de Lima e Margarida Maria de Lima.

Operário metalúrgico, casado, tinha filhos.

Foi preso no dia 16 de janeiro de 1976, às 12:00 h, por dois homens que se diziam

agentes do DOI-CODI/SP, sob a acusação de pertencer ao (PCB).

Levado para a sede do DOI/CODI, Manoel Fiel foi torturado e, no dia seguinte,

acareado com Sebastião de Almeida, preso sob a mesma acusação.

Posteriormente, os órgãos de segurança emitiram nota oficial afirmando que Manoel

havia se enforcado em sua cela com as próprias meias, naquele mesmo dia 17, por volta das

13 horas.

Entretanto, segundo os depoimentos dos companheiros de fábrica de Manoel, onde ele foi

preso, o calçado que usava eram chinelos, sem meias, contrariando a versão oficial.

As circunstâncias da sua morte são idênticas as de José Ferreira de Almeida, Pedro

Jerônimo de Souza e Wladimir Herzog, ocorridas no ano anterior.

O corpo apresentava sinais evidentes de torturas, em especial hematomas

generalizados, principalmente na região da testa, pulsos e pescoço.

Um fato claramente demonstrativo da responsabilidade dos órgãos de segurança na

morte de Manoel Fiel é o afastamento do Gen. Ednardo D'Ávila Melo, ocorrido três dias

após a divulgação da sua morte.

Em ação judicial movida pela família, a União foi responsabilizada pela tortura e

assassinato.

O exame necroscópico, solicitado pelo delegado de polícia Orlando D. Jerônimo e

assinado pelos médicos legistas José Antônio de Mello e José Henrique da Fonseca,

confirma a versão oficial.

Foi enterrado por seus familiares no Cemitério da IV Parada, em São Paulo.

Em documento confidencial encontrado nos arquivos do antigo DOPS/SP seu crime

era receber o jornal Voz Operária de Sebastião de Almeida.

Recorte do Jornal da Tarde com carimbo do Setor de Análise do DEOPS, com a

Nota do II Exército sobre a morte no DOI, diz:

"O comando do II Exército lamenta informar que foi encontrado morto, às

13:00 hs do dia 17 do corrente, sábado, em um dos xadrezes do DOI/CODI/II

Exército, o Sr. Manoel Fiel Filho.

Para apurar o ocorrido, mandou instaurar Inquérito Policial-Militar, tendo

sido nomeado o coronel de Infantaria QUEMA (Quadro do Estado Maior da Ativa)

Murilo Fernando Alexander, chefe do Estado Maior da 2ª Divisão de Exército."

Documento datado de 28 de abril de 1976 e assinado por Darcy de Araújo Rebello -

Procurador Militar, pede o arquivamento do processo alegando: "As provas apuradas, são

suficientes e robustas para nos convencer da hipótese do suicídio de Manoel Fiel Filho, que

estava sendo submetido a investigações por crime contra a segurança nacional."... "Aliás,

conclusão que também chegou o ilustre Encarregado do Inquérito Policial Militar".

O Relatório do Ministério da Aeronáutica mantém a versão oficial.

Depoimento do preso político Antônio d'Albuquerque, em Auditoria Militar, à época,

denunciou as torturas sofridas por Fiel Filho, afirmando que foi levado para ver seu cadáver

no DOI-CODI/SP junto com outros presos políticos.

Pequena biografia de Manoel Fiel Filho feita pelo Sindicato dos Metalúrgicos de

São Paulo, por ocasião do lançamento do livro "Manoel Fiel Filho: quem vai pagar por

este crime?", da Editora Escrita, encontrado no antigo arquivo do DEOPS/SP:

"Manoel Fiel, no dia 16 de Janeiro de 1976, havia sido detido ilegalmente às

12:00h por dois policiais que se diziam funcionários da Prefeitura, na fábrica onde

trabalhava, a Metal Arte. Puseram-no num carro, foram até sua casa que foi

vasculhada por eles. Nada encontraram que pudesse incriminar Fiel Filho.

Diante de sua mulher - Tereza de Lourdes Martins Fiel - levaram-no para o

DOI-CODI do II Exército, afirmando que ele voltaria no dia seguinte. Mas ele não

voltou.

No dia seguinte, um sábado, às 22:00h, um desconhecido, dirigindo um Dodge

Dart, parou em frente à casa do operário e, diante de sua mulher, suas duas filhas e

alguns parentes, disse secamente: 'O Manoel suicidou-se. Aqui estão suas roupas.'

Em seguida, jogou na calçada um saco de lixo azul com as roupas do operário

morto.

Sua mulher então começou a gritar: 'Vocês o mataram! Vocês o mataram!'

Naquela trágica noite, os parentes que foram até o lnstituto Médico Legal

tentar recuperar o corpo do operário morto, sentiram-se pressionados. As

autoridades só entregavam o corpo com a condição de que Fiel Filho fosse sepultado

o mais rapidamente possível e que ninguém falasse nada sobre sua morte. No

domingo, dia 18, às 8:00h da manhã, ele foi sepultado. Desde então, a mulher do

operário morto e suas duas filhas desaprenderam de sorrir. Obrigadas ao silêncio,

elas nem mesmo se manifestaram quando o então comandante do II Exército, general

Ednardo D'Ávila Melo, foi exonerado do seu cargo.

Dias depois, um comunicado do II Exército dizia que Fiel Filho havia se suicidado

na prisão e que todos os fatos seriam investigados. Em apenas 20 dias, foi feito um

inquérito e, mesmo sem qualquer base legal ou provas concretas, concluiu pelo

'suicidio'.

Logo depois, o processo foi arquivado.

Dois anos se passaram em silêncio. Até que, recentemente, se pôde provar que,

antes de morrer, o operário sofrera torturas. Gritava de dor e pedia aos seus

torturadores: 'Pelo amor de Deus, não me matem.'

Seus gritos foram sumindo durante as torturas até que acabou morrendo

estrangulado. Não fora suicídio.

Diante das evidências, a viúva Tereza de Lourdes Martins Fiel resolve romper

o silêncio e ingressar na Justiça com uma ação cível contra o Governo, requerendo

indenização pela morte de seu marido.

'Não quero dinheiro. Quero justiça!' disse ela. Além disso, diante dos novos

fatos, requereu-se à Justiça Militar que a morte de Fiel seja novamente investigada,

o que está para acontecer."

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+ Informações.

30 anos da morte de Manoel Fiel Filho: Camarada Manoel, presente!
Por PCB 01/02/2006 às 16:40

No dia 16 de janeiro de 1976, o operário metalúrgico e membro da base da Mooca do PCB-SP, Manoel Fiel Filho, que trabalhava na fábrica Metal Arte, foi levado de seu trabalho, às 12 horas, por agentes do DOI-CODI.

No dia 16 de janeiro de 1976, o operário metalúrgico e membro da base da Mooca do PCB-SP, Manoel Fiel Filho, que trabalhava na fábrica Metal Arte, foi levado de seu trabalho, às 12 horas, por agentes do DOI-CODI. Os algozes passaram em sua casa, revistaram tudo e não encontraram nada. Mesmo assim, o colocaram num carro e o levaram para a rua Tutóia, sede do DOI-CODI, com a promessa à sua esposa, Teresa de Lourdes Martins Fiel, de que o soltariam no dia seguinte.

Ao chegar ao DOI-CODI Fiel Filho foi torturado barbaramente durante todo o dia 16, mesmo sendo militante de base, sem informações estratégicas sobre o PCB. No dia seguinte, foi acareado com outro militante, Sebastião Almeida, que lhe passava o jornal do Partido, VOZ OPERÁRIA. Ele nada confessou aos seus torturadores e voltou a ser barbaramente torturado. Segundo alguns detidos que estavam no DOI-CODI na época, os gritos de Manoel Fiel Filho diante das torturas foram sumindo aos poucos até que faleceu. Morreu estrangulado pelos torturadores.

Cinicamente, os órgãos de segurança divulgaram nota oficial dizendo que Fiel Filho tinha se enforcado em sua cela com as suas próprias meias, no dia 17, por volta das 13 horas. Mas a mentira era apenas uma desculpa, pois o operário quando fora preso calçava chinelos e não tinha meias e, além disso, seu corpo apresentava sinais visíveis de tortura, como hematomas generalizados na teste, nos pulsos e no pescoço. Depoimento do preso político Antônio D`Albuquerque, na Auditoria Militar, denunciou não só as torturas infligidas ao nosso camarada, mas contou ainda que foi levado, junto com outros presos, a ver o cadáver do operário nas celas do DOI-CODI. No dia seguinte, um sábado, um desconhecido, dirigindo um Dodge Dart, parou na frente da casa de Fiel filho e, diante da mulher e das duas filhas, jogou um saco de lixo com as roupas do operário e disse: o Manoel se suicidou, ao que sua mulher gritou bravamente. Vocês o Mataram, Vocês o Mataram.

As circunstâncias da morte de Fiel Filho foram idênticas às de outros camaradas, como o tenente José Ferreira de Almeida, Pedro Jerônimo de Souza e Vladimir Herzog. Diante da repercussão de mais um "suicídio" no DOI-CODI, o ditador de plantão, general Ernesto Geisel, demitiu o comandante do II Exército, Ednardo DÁvila Melo, três dias após o episódio. Em ação judicial movida pela família de Fiel Filho, a União foi responsabilizada pela tortura e morte do velho camarada.

Vale lembrar os principais responsáveis pela polícia política na época: a Casa das Torturas no DOI-CODI era comandada pelo tenente coronel Audir Santos Maciel, tendo como subcomandante o major Dalmo Lucio Muniz Cirylo. O oficial do dia era o tenente da PM Tamoto Nakao. Os carcereiros do dia eram Alfredo Umeda e Antonio Jose Nocete, ambos soldados da PM. A equipe de interrogadores era composta pelo tenente Nakao e os delegados Harim Sampaio d´Oliveira e Edevard José. O interrogador pessoal de Fiel filho foi o sargento Luiz Shinji Akaboshi. O enfermeiro de plantão era o sargento Moacyr Piffer, que era a autoridade para dizer se o preso ainda suportaria ser torturado ou não.
Os comunistas que hoje continuam a luta do Partido Comunista Brasileiro pelo socialismo no País jamais se esquecerão dos seus heróis massacrados pela polícia política a soldo das classes dominantes e do sistema capitalista. Quando conquistarmos o poder e construirmos uma sociedade humana e feliz estes companheiros serão homenageados pelas gerações que viverão num mundo livre.

URL:: http://www.pcb.org.br/boletimnovo%2013.html
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Um operário cujo crime era ler A VOZ OPERÁRIA .

Qua, 10 de Novembro de 2010

Metalúrgico é vítima da Oban

A morte por tortura do metalúrgico paulistano Manuel Fiel Filho durante a Operação Bandeirantes (Oban), nos porões do DOI Codi, a exemplo do assassinato de outras pessoas inocentes como o estudante Alexandre Vannucchi Leme (morto em 1973) e o jornalista Vladimir Herzog (morto em 1975), marcou o início do descrédito ao governo dos militares e da pressão popular pelo fim da ditadura no Brasil.

Criada pelo Exército do Brasil em julho de 1969, a pretexto de constituir um centro de informações e investigações (que na prática se traduzia em repressão às organizações de esquerda e de oposição ao governo), a Oban só foi institucionalizada e expandida para as principais capitais do País através do sistema DOI-CODI (Destacamento de Operações de Informações - Centro de Operações de Defesa Interna) criado no segundo semestre de 1970.

Tais operações consistiam em - sem mandado judicial - prender e interrogar sob tortura qualquer suspeito de realizar atividades políticas de esquerda ou de oposição ao governo. Para a historiadora Mariana Joffily, além de ser um meio de obter informações, a tortura funcionava também como uma demonstração de poder dos agentes repressivos sobre os militantes políticos. Segundo Joffily, tal técnica levantava informações rapidamente, com baixo custo financeiro. Mas, no longo prazo, apresentou um elevadíssimo custo moral e político.

Fiel Filho: provocação da linha dura

Até o dia 16 de Janeiro de 1976, Manoel Fiel Filho era operário da fábrica Metal Arte, filiado ao Partido Comunista e ao Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo. Nesta data, diante de sua mulher, Tereza de Lourdes, o operário foi detido às 12:00h por dois agentes policiais e levado ao DOI-Codi. Em documento confidencial encontrado nos arquivos do antigo DOPS/SP seu crime seria receber o jornal Voz Operária. Ao sair Manuel ainda tentou acalmar Tereza, dizendo que voltaria logo. Mas ele não voltaria. No DOI-CODI do II Exército foi torturado barbaramente até a morte. Ele nada confessou aos seus torturadores.

No dia seguinte um homem, dizendo ser do Hospital das Clínicas, parou em frente à casa de Tereza e informou-lhe secamente que Manoel se suicidara. Ela não teve dúvidas e gritou: - Vocês o mataram, vocês o mataram...

A liberação do corpo de Manuel foi dificultada pelos agentes da polícia e do governo. O corpo só foi entregue com a condição de que não fosse visto por ninguém, que fosse sepultado rapidamente e sem muitos comentários. Em 18 de janeiro, um domingo, às 8:00h da manhã houve o sepultamento. No velório militares à paisana rodeavam a família e vigiavam os acontecimentos. Mas antes do enterro os parentes pressionaram pela abertura do caixão. As marcas do corpo reforçavam a suspeita de assassinato.

Somando-se às evidências que contrariaram a versão oficial de suicídio, o então preso político Antônio d'Albuquerque que, no DOI Codi, foi levado para ver o cadáver de Fiel Filho, afirmou em depoimento sua constatação das marcas da tortura. Além disso, não haveria outro motivo, que não o crime contra o operário, para justificar o afastamento do general Ednardo d'Ávila Melo do II Exército de São Paulo, três dias após a divulgação da morte de Manuel. Entretanto, o processo foi arquivado.

Joaquinzão (Joaquim dos Santos Andrade, 1926-1997), presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo até 1987, foi o único presidente de todos os sindicatos de metalúrgicos brasileiros que, em janeiro de 1976, protestou pela morte do operário Manuel Fiel Filho. O sindicalista logo que tomou conhecimento da morte de seu colega, enviou um telegrama ao governo federal exigindo apuração dos fatos e punição aos culpados.

Em abril de 1979 a viúva Tereza resolveu mover na Justiça uma ação cível contra o Governo, requerendo indenização pela morte de seu marido. Seus advogados, Marco Antonio Barbosa, Samuel McDowell Figueiredo e Sérgio Bermudes, anexaram depoimentos de presos que estiveram no DOI-Codi, além de colocarem em dúvida a versão do suicídio, usando os fatos da época e os laudos necroscópicos como o laudo de exame necroscópico do cadáver do operário, feito pelo Instituto Médico Legal de São Paulo, cuja conclusão era de morte por estrangulamento. Foi incluído o depoimento de um dos peritos, afirmando que casos de estrangulamento configuram homicídio e não de suicídio. Em 1980, a União foi condenada a pagar seis salários mínimos mensais a Tereza, reconhecendo a responsabilidade pela morte do operário.

A morte trágica de Manoel Fiel Filho evidenciou a divisão interna entre os próprios comandantes da ditadura. A morte de Vannucchi Leme e de Herzog já expusera demais a violência e arbitrariedade da polícia oficial. Morto na mesma carceragem deste último, e com a mesma desculpa de "enforcamento", da parte general d'Ávila Melo, Fiel Filho serviu como provocação da linha dura à chamada linha moderada, que já atinava para uma abertura lenta e gradual.

A ação da Oban, como dos demais órgãos de repressão, só começou a arrefecer a partir da "abertura lenta e gradual", já no governo de Ernesto Geisel, quando a ditadura encontrava-se profundamente desgastada. O desmonte do aparelho repressivo ocorreu de forma ambígua, de maneira a preservar a impunidade daqueles que executavam a tortura. Segundo Joffily, assim como sua instituição dera-se através de uma diretriz interna do Exército, sua extinção foi realizada, sem grandes alardes, por meio de uma instrução administrativa.

Ao manter a impunidade dos torturadores e de seus facilitadores a transição para a democracia (a partir de 1985) realizou-se de maneira superficial. Mais de vinte anos depois desta transição, a marca deixada pelo sistema DOI-CODI está longe de ser superada. A luta pela qual morreu Fiel Filho avançou, mas ainda apresenta desafios nas entranhas da sociedade.

Carolina Maria Ruy
Jornalista e pesquisador

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O Estado de São Paulo, 12 de junho de 2008

Docudrama recupera heroísmo do operário Manoel Fiel Filho
Luiz Carlos Merten

Domingo, por volta das 16 horas. Céu parcialmente encoberto na zona leste de São Paulo. No cemitério da Quarta Parada, no Tatuapé, três mulheres de preto descem por uma alameda depois de depositar rosas vermelhas num túmulo. De um praticável, montado em outra alameda, elas são filmadas - pois se trata de uma filmagem - pelo diretor que mantém um olho no monitor e outro no cronômetro, enquanto se ouve de fundo (e alto) Elis Regina soltar a voz nos versos de O Bêbado e a Equilibrista, de João Bosco e Aldir Blanc, que virou hino da anistia (e da campanha pela volta dos exilados políticos). Há um clima de profunda emoção na coisa toda, e o próprio repórter do Estado viaja em suas lembranças, voltando a uma fase sombria da vida brasileira. Mas para as três mulheres é pior.

São a mulher, Thereza de Lourdes Fiel, e as duas filhas, Márcia e Aparecida, de Manoel Fiel Filho, o metalúrgico que, no início de 1976, foi preso na fábrica em que trabalhava - Metal Arte -, acusado de distribuir aos colegas o jornal A Voz Operária, um impresso clandestino do Partido Comunista Brasileiro. Levado para o porão do DOI-Codi, em São Paulo, foi torturado e, em poucas horas, estava morto. Ele foi o 39º morto - entre as vítimas oficialmente reconhecidas - pelo regime militar, mas seu caso foi classificado como suicídio. Foi o ''suicídio'' de Manoel Fiel Filho, 84 dias após outra morte em circunstâncias idênticas, a do jornalista Vladimir Herzog, na mesma carceragem, que levou o então presidente Ernesto Geisel a colocar um ponto final nos porões da ditadura, para coibir o que já virara uma anarquia militar - Geisel demitiu seu ministro do Exército, o general Sylvio Frota, e o comandante do 2º Exército, Ednardo D''Ávilla Mello. As duas demissões, sumárias e desonrosas, aceleraram o processo de distensão política ''lenta e gradual'' que o presidente iria colocar em prática.

A morte de Manoel Fiel Filho faz parte da história brasileira. ''Meu marido foi um mártir'', diz a viúva, até hoje inconformada com o tratamento de segunda classe que este verdadeiro herói brasileiro recebe na mídia. O caso de Vladimir Herzog repercutiu muito mais e, até hoje, a cada aniversário de morte do ex-diretor de jornalismo da TV Cultura, a família Fiel sente-se discriminada, porque, ao falar de Herzog, ninguém se lembra de Manoel Fiel Filho e, quando falam de seu sacrifício nos porões da ditadura, a história é sempre pretexto para que se volte a falar de Herzog. É um pouco essa injustiça que o jornalista e diretor Jorge Oliveira quer corrigir em seu documentário. Alagoano como Fiel Filho, não é tanto a sua origem, mas a indignação que movimenta Oliveira, que está colocando dinheiro do próprio bolso na realização do filme.

É outra coisa que o revolta. ''Inscrevi o filme na Petrobrás e não ganhei nada. Não houve interesse da comissão que avaliava os projetos em recuperar a história de um herói brasileiro, mas ''eles'' (a comissão) colocaram dinheiro da Petrobrás num filme como Meu Nome Não É Johnny. Depois de ver o Johnny quase quis virar traficante. Muito instrutivo'', ele provoca. Jornalista e marqueteiro político, sediado em Brasília, Oliveira é o primeiro a rir de seu currículo, porque ele fez a campanha de Renan Calheiros, por exemplo. Dado o rumo que tomou a história do político, não é uma grande recomendação, mas do marketing político ele saltou para o cinema, realizando documentários sobre Carlos Drummond de Andrade, entre outras personalidades da vida cultural do País, ou então outro, encomendado por Leonel Brizola, sobre o governo de Fernando Collor de Mello em Alagoas, que o ex-governador do Rio pretendia usar como trunfo no segundo turno, mas aí Luiz Inácio Lula da Silva foi para a segunda fase da eleição de 1989, houve aquele tal debate na Globo e... Você conhece a história.

''Meu filme não é sobre Manoel Fiel Filho. Uso o caso dele, que me parece exemplar, para falar de um quadro muito mais amplo - o envolvimento da CIA, isto é, dos norte-americanos, na repressão política montada no Cone Sul, nos anos 70'', explica o diretor. É, de novo, a história de Operação Condor e ele gostou do documentário de Roberto Mader. Seu filme vai ser diferente - um misto de documentário e realidade reconstituída, aquilo que se chama de ''docudrama''. O título veio de uma frase do brasilianista Jordan Young, entrevistado por Oliveira em Washington. Oliveira perguntou a Young o que diria a Manoel Fiel Filho, sobre o envolvimento do seu governo na máquina de tortura e morte montada na América do Sul, há mais de 30 anos. A resposta dele virou título do filme de Jorge Oliveira. Sorry, Mr. Fiel. Perdão, Mr. Fiel.

Para a mulher e as filhas do ex-metalúrgico Fiel, não é fácil debruçar-se sobre uma fase tão dolorosa da vida de todas. ''Somos espiritualistas kardecistas e sabemos que só os ossos de meu pai estão aqui neste cemitério'', diz Márcia, que tinha 16 anos, na época. Para ela, Manoel está hoje em outra esfera da vida espiritual, mas o uso que o diretor faz de O Bêbado e a Equilibrista, ajustando o final de seu filme - parte filmado em Brasília, parte no Tatuapé - à duração da música, amolece qualquer coração. ''Já choramos todas as nossas lágrimas'', Aparecida acrescenta. ''Mas a emoção ainda é muito forte.'' Aparecida tinha 19 anos e já estava casada - grávida - na época. No cemitério da Quarta Parada, o diretor usa o cronômetro para marcar o tempo da música, sobre as imagens de mãe e filha que depositam as rosas no túmulo de Manoel Fiel Filho. A derradeira imagem do filme será justamente a das rosas vermelhas, pousadas sobre a lápide.

A música tem quase 4 minutos - 3min40 - e os dois minutos iniciais foram gravados no Pólo de Cinema de Sobradinho, próximo a Brasília. Foi lá que Oliveira reconstituiu a cela do DOI-Codi em que o corpo de Manoel, interpretado pelo ator Roberto de Martin, é encontrado no chão, repleto de hematomas e enforcado com a própria meia de náilon azul. O filme é em preto-e-branco, com alguns detalhes coloridos, como a rosa vermelha da última cena. No estúdio em Brasília, o macacão de Manoel também tem cor - azul -, mas o restante da cena foi feito em preto-e-branco, o que permite ao diretor fazer a fusão de uma tarja na cela com o preto dos vestidos das três mulheres no cemitério. ''É um filme tenso, uma luz crua'', define o diretor. A cena de tortura foi a mais difícil. ''Ficou um clima pesado'', diz o diretor, que gravou - com equipamento digital - durante duas semanas. ''Fiquei mal'', acrescentou o ator De Martin.

Embora a última cena tenha sido feita no domingo passado, Oliveira ainda colhe depoimentos essenciais para o quadro amplo que pretende traçar. Na segunda-feiora, ele entrevistou, em São Paulo, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e ainda aguarda o sinal verde para entrevistar, em Brasília, o presidente Lula. Oliveira anuncia que quer cobrar do presidente seus recentes elogios a governos militares. ''Manoel era metalúrgico como ele e tem gente que agora acusa o presidente de traição aos companheiros que caíram.'' Oliveira espera poder estrear seu filme no Festival de Brasília, em novembro. Antes disso, é provável que Perdão, Mr. Fiel ganhe mais algum destaque na mídia por um detalhe que não é irrelevante. A injustiça em relação a Manoel Fiel Filho é tão grande que, até quando a União se dispôs a indenizar familiares e vítimas do regime militar, a viúva do operário recebeu uma das menores indenizações que foram pagas pelo Estado. Thereza de Lourdes Fiel está recorrendo da decisão. O dinheiro não vai remediar o sofrimento de 32 anos de dona Thereza, mas é uma questão de Justiça e ela vai brigar pelo que lhe é de direito. O mais incrível foi o que o diretor descobriu ao investigar o assunto. Manoel Fiel Filho foi preso por engano. A polícia política procurava um agente cujo codinome era Fiori. Na confusão dos nomes, Manoel foi preso - e morto. Mas seu sacrifício não foi em vão. A distensão de Geisel deve muito à dor da família Fiel.

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Balaio do Kotscho - Balaio do Kotscho
15/09/2009 - 17:38
Trinta e três anos depois, Justiça reabre caso Fiel Filho
Mataram o operário por engano, simularam um suicídio e tentaram esconder o corpo. É desta tragédia humana que vou tratar aqui hoje com conhecimento de causa.
Trinta e três anos atrás, no dia 22 de janeiro de 1976, na página 16 do primeiro caderno do Estadão, fui eu que denunciei este crime praticado nos porões do DOI-CODI por agentes da ditadura militar.

Na tarde desta segunda-feira, segundo relato do repórter Marcelo Oliveira, no portal Terra, a Justiça decidiu reabrir o caso para punir os responsáveis pelo crime: "A 5ª Turma do Tribunal Federal em São Paulo decidiu, por unanimidade, determinar a reabertura da ação civil pública proposta pelo Ministério Público Federal para que sete servidores públicos estaduais que participaram da prisão ilícita, torturas, morte e da ocultação das reais causas da morte do operário Manoel Fiel Filho sejam declarados civilmente responsáveis pelo caso.

O assassinato ocorreu no Destacamento de Operações de Informações do Centro de Operações de Defesa Interna do II Exército, em São Paulo, em 17 de janeiro de 1976.

A ação do MPF pede a declaração judicial de responsável pessoal dos réus pela perpetração desta seqüência de violações dos direitos humanos e a condenação à reparação dos gastos da União com indenizações de parentes da vítima, estimados em R$ 438 mil, além da perda das funções e cargos públicos e a cassação de benefícios de aposentadoria dos acusados".

Até onde sei, esta é uma iniciativa inédita do MPF para punir torturadores.

O país só ficaria sabendo da morte de Manoel Fiel Filho pelo jornal, cinco dias depois do assassinato. Para aqueles que ainda não tinham nascido, eram muito jovens na época ou já se esqueceram do crime, é bom relembrar como era o trabalho dos jornalistas naquela época e o tratamento que se dava aos presos políticos.

Trato da cobertura que fiz do caso Fiel Filho em dois dos livros que publiquei e vou recorrer a eles para contar a história como foi desde o começo.

Nas páginas 35-37 do meu livro "A Prática da Reportagem", lançado pela Editora Ática, em 1985, conto como fui escalado para fazer esta reportagem, o trabalho de apuração, que contou com a ajuda da sorte, e as conseqüências da publicação da matéria:

Numa segunda-feira de manhã, Clóvis Rossi, chefe de reportagem do Estadão, me passou um relatório sobre a morte de um operário no DOI-CODI, mais ou menos nas mesmas circunstâncias do que acontecera com o jornalista Vladimir Herzog:

"Dá uma olhada nisso, vê o que você consegue levantar". No relatório, só o nome do operário e seu endereço. As chances de conseguir alguma coisa, naquele tempo, eram mínimas. Mas a obrigação do repórter é tentar _ sempre.

Na casa dele não havia ninguém. Os vizinhos não sabiam de nada. E, se alguém sabia, tinha medo de falar. Com um deles, consegui pelo menos uma indicação: Manoel Fiel Filho, o operário, tinha parentes que moravam num outro bairro, "perto de uma padaria".

Quando já estava quase desistindo de encontrar esta casa dos parentes, vi passar perto da padaria um Bispo. Bispo, nessas horas, sempre costuma saber o que está acontecendo em sua diocese.

Não deu outra: o Bispo tinha acabado de sair da casa onde se encontrava Teresinha, a viúva do operário. Depois, foi só complementar o que ela me contou, ouvindo colegas de serviço na fábrica, patrões, o coveiro, a zeladora do velório e os dirigentes do sindicato dos Metalúrgicos, ao qual ele pertencia.

No dia seguinte, até eu levei um susto quando vi a matéria publicada no alto da página. Explica-se: fazia apenas três meses que Vlado tinha morrido _ e todos nós, jornalistas ainda vivíamos com medo.

Minha mulher estava grávida da segunda filha, e disse que eu era maluco: a matéria saiu assinada. Mas, enquanto os colegas ainda comentavam a matéria na redação, poucos dias depois chegava a notícia de que o comandante do II Exército, general Ednardo D´Ávila Mello _ responsável último pelo que acontecia no DOI-CODI _ tinha sido afastado do cargo pelo presidente Ernesto Geisel.

Alguns trechos da matéria que publiquei no Estadão:

Como todos os dias dos últimos dezenove anos, desde que entrou na Metal Arte, Manoel Fiel Filho chegou à fábrica da Mooca antes das sete da manhã, na última sexta-feira.

O chefe do pessoal lembra que Manoel não mostrou nenhuma preocupação quando os dois homens lhe disseram que ele precisava ir ao DOPS "para fazer um reconhecimento".

Duas horas depois, Manoel e os dois homens chegavam à sua casa, na rua Coronel Rodrigues, 155, em Sapopemba.

Ao se retirarem, Teresinha, desesperada, desrespeitou as ordens dos policiais e se aproximou do marido:

_ O que vão fazer contigo?

No dia seguinte, sábado, um táxi parou em frente à casa 155 da rua Coronel Rodrigues. Um homem desceu, jogou no quintal um saco de lixo e um envelope, e berrou:

_ O "Seu" Manoel tentou o suicídio.

Teresinha ainda tentou perguntar alguma coisa, mas rapidamente o homem entrou no carro e desapareceu. A viúva só teve tempo de gritar:

_ Eu sabia que iam matar ele. Eu sabia que vocês iam matar ele.

No saco azul de 20 litros, com o emblema da Lixeira Ideal, estavam a calça e a camisa de brim, o cinto e um par de sapatos. No envelope, com o timbre do Exército, os documentos de Manoel.

Na página 57 do meu livro de memórias "Do Golpe ao Planalto _ Uma vida de repórter", editado pela Companhia das Letras, em 2006, conto o que aconteceu quando voltei á redação.

"Rossi, consegui a história completa. Mataram o operário do mesmo jeito que fizeram com o Vlado e tentaram esconder a morte dele".

Começava aí a parte mais dramática da história, pelo menos para mim. A direção do jornal só aceitava publicar a denúncia se eu assinasse a matéria e assumisse toda a responsabilidade por ela. Minha mulher, grávida, andava cada vez mais assustada com a prisão de jornalistas e o desaparecimento súbito de colegas da faculdade.

Apesar de todo o meu medo, eu não tinha alternativa. A matéria foi publicada na, sob o título "Manoel, da fábrica da Mooca à morte". Nos dias seguintes, caía Ednardo d´Ávila Mello, o comandante do então II Exército. Geisel (general Ernesto Geisel, presidente da República na época dos fatos) cumpriu o que prometera: se houvesse um novo caso Herzog nos porões da repressão, demitiria o comandante.

Fiel Filho, cuja única atividade "subversiva" era distribuir o jornal Voz Operária, do então clandestinoPartido Comunista Brasileiro, decerto foi morto por engano _ um "acidente de trabalho", como se dizia cinicamente naqueles anos mais tarde chamados "de chumbo".

Hoje em dia é muito fácil para qualquer cidadão, jornalista famoso ou leitor anônimo, detonar o presidente da República, as Forças Armadas, o Congresso Nacional e o Judiciário, mas eu gostaria de saber onde estavam estes valentes de salão nos tempos em que contar _ assinando a matéria com o próprio nome _ o que o regime queria esconder era correr risco de vida.

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VÍDEOS

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A morte do operário Manoel Fiel Filho, no DOI CODI em São Paulo em 1976, é a base do documentário que mostra a atuação dos Estados Unidos na caça ...

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