APESAR DE VCs

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Retomaremos este Blog para postar as Histórias da Ditadura, como um BLOG janela ligado ao Blog JUNTOS SOMOS FORTES

NOSSOS HEROIS -

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Amigos(as) Criei uma pagina no FACEBOOK intitulada : NOSSOS HERÓIS. Meu objetivo é resgatar a história dos mineiros (as) que lutaram contra a ditadura militar. Fui Presidente do Comitê Brasileiro Pela Anistia/MG e estou postando todas anotações que fiz durante esse periodo. São documentos históricos e inéditos. Caso tenha interesse dê uma olhadinha Abraços BETINHO DUARTE

Tuesday, April 19, 2011

DITADURA: VERDADES OMITIDAS: MÉRCIA, ADVOGADA DE TODAS AS HORAS

DITADURA: VERDADES OMITIDAS: MÉRCIA, ADVOGADA DE TODAS AS HORAS: "

De: Urariano

MÉRCIA, ADVOGADA DE TODAS AS HORAS



(COLUNA DO URARIANO MOTA)

19/04/2011, 18:09

Filed under: Sem categoria


Nos últimos dias, a sua presença voltou com uma força que eu não imaginava. Tornou-se impossível fugir da sua pessoa em cada linha ou leitura que eu fazia. Por isso lembro.


Rua Sete de Setembro, 197, Edifício Ouro. Na década de 70, era para lá que rumávamos. Entrávamos no edifício sem olhar para trás, rápido, como se ladrões fôssemos, como se fôssemos criminosos, como se já estivéssemos no Chile de Pinochet e ali penetrássemos para nos salvarem uma embaixada. Ali, no apartamento 52 do Edifício Ouro, uma mulher de estatura média, de olhos abrasantes, nos atendia.


“Advogada Mércia Albuquerque, presente”. Não eram essas as palavras, não era bem assim que ela nos vinha, mas era exatamente esse o ar, que a sua presença nos sugeria. “Descansem. Eu estou presente. Sim, eu conheço esses milicos. Essa canalha do DOPS eu já sei como age. Descansem, vocês estão em casa”. Não lembramos bem se essas eram as palavras, se algum dia ela assim se expressou, mas sentimos que do seu corpo frágil, agitado, andando pela sala do apartamento, sem se sentar, vinha a insinuação delas. “Tranquilizem-se, se fizermos a denúncia, a vida dele está salva”. Elétrica, agitada, e, no entanto, nos dava uma grande calma.


Agora que ela não mais habita no Edifício Ouro, agora que seu corpo se acha definitivamente ausente, agora que superamos a ditadura, nesta altura em que ficou fácil ser democrata, ah, o factual, o seu currículo de advogada de perseguidos políticos, de presos torturados, tudo isso tende a se fundir em versões e esquecimento. Não sabemos se é sempre assim quando a gente se ausenta, mas de Mércia fica uma impressão íntima, uma forma de orquídea violeta que não sabemos de onde nem por que nos vem. Agora mesmo, enquanto digitamos estas mal traçadas, a voz de Bienvenido Granda nos chega insistente aos ouvidos, embora em torno só haja o tique-taque do relógio no silêncio da madrugada. “Egoísmo” é o bolero que nos chega, não sabemos por quê.


E, no entanto, sabemos a razão, ou pelo menos desconfiamos do porquê. A doutora Mércia Albuquerque era um ser passional. É isto o que a violeta roxa e Bienvenido nos querem dizer. Ela resolveu defender Gregório Bezerra porque o viu arrastado por uma corda ao pescoço em 1964, em Casa Forte. Ao se tornar advogada de Abelardo da Hora, acolheu os filhos desse artista em seu apartamento 52 do Edifício Ouro. Ao ser sequestrada por agentes do DOPS, foi atirada de volta na Rua da Guia, que, à época, era a última e mais miserável rua do bairro de putas do Recife antigo. Ali, ela recordaria depois, recebeu dinheiro e solidariedade de uma prostituta que atendia pelo nome de Biscuit. Defensora de radicais materialistas, de jovens socialistas ou de jovens simplesmente desesperados, sem saída, era, ela própria, católica, até meio mística, e nisso não via nada que fosse obstáculo à defesa daqueles “terroristas”, como os difamava a propaganda da ditadura militar.


Pois foi a esta mulher, tantas vezes presente nas aflições dos perseguidos políticos, que tanto perigo correu por defender “terroristas”, que presa 12 vezes sem culpa, sem inquérito, sem acusação formal, como de resto se continua a fazer com os pobres e miseráveis do Brasil, que conviveu com a destruição física e humana de militantes, e também com o heroísmo imenso desses torturados, pois foi a esta mulher que parecia ter flertado com a eternidade, porque tantas vezes esteve perto do fim e dele se safou e o pulou como acrobata, pois foi a esta mulher que a morte colheu numa mesa de operações! Em 29 de janeiro de 2003 a doutora Mércia foi ali e não voltou, vítima de um câncer que lhe devastou o ovário. Ainda que esse câncer sintomático lhe tenha minado a vida, traiçoeira e silenciosamente, não foi bem essa infâmia que a matou. A causa mortis apontou parada cardíaca.


Para uma advogada passional, para uma mulher que lembrava a rara orquídea roxa, faz sentido uma morte assim, de parada no coração. A vida da gente é estúpida, é certo, mas ao fim sempre guarda algum sentido. Um sentido que não sabemos se conseguimos realizar, doutora, neste espaço curto, nessa lembrança curta de quem a viu uma vez, mas jamais esqueceu de que seus olhos queimavam na gente feito urtiga.


***


Urariano Mota é natural de Água Fria, subúrbio da zona norte do Recife. Escritor e jornalista, publicou contos em Movimento, Opinião, Escrita, Ficção e outros periódicos de oposição à ditadura. Atualmente, é colunista do Direto da Redação e colaborador do Observatório da Imprensa. As revistas Carta Capital, Fórum e Continente também já veicularam seus textos. Autor de Soledad no Recife (Boitempo, 2009) sobre a passagem da militante paraguaia Soledad Barret pelo Recife, em 1973, e Os corações futuristas (Recife, Bagaço, 1997). Colabora para o Blog da Boitempo quinzenalmente, às terças.


http://boitempoeditorial.wordpress.com/2011/04/19/mercia-advogada-de-todas-as-horas-coluna-do-urariano-mota/

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